sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Formação Escola Estadual em Caraguatatuba

Noite de formação na Escola Estadual E. E. Alcides de Castro Galvao. Roda de conversa sobre educação inclusiva e deficiência visual. Reflexões, depoimentos e aprendizados que levarei comigo pra sempre. Sou apaixonada pelo que faço
 
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Este álbum possui 4 fotos e estará disponível no OneDrive até 17/11/2016.
 
é por ter a oportunidade de disseminar o conhecimento, de partilhar a informação. Essa paixão me faz intensa porque acredito que a educação transforma vidas.

Relato de Experiência Publicado em Livro da UNESP

Curso de Aperfeiçoamento em Práticas Educacionais Inclusivas - UNESP Bauru 2015
Página 32.

CURSO DE APERFEIÇOAMENTO EM PRÁTICAS ... - UNESP

reflexão

"crianças cegas precisam do contato físico com as bolinhas do Braille, assim como crianças que
enxergam precisam ver letras grandes, associar as letras a figuras, contar maçãzinhas para aprender
a fazer as primeiras contas, porque crianças pequenas não têm o poder de abstração que o computador
exige. Esse atributo só aparece lá pelos 10 ou 11 anos de idade. Aprender o alfabeto normal também
sou favorável, ajuda a entender letras em relevo; escrever e assinar a tinta, então, nem se fala."
(Regina de Carvalho)

Ideia esta que sempre procuro transmitir em meus cursos. Tenho observado, com grande frequência, a tentativa de substituir o Braille pela escrita por meio da informática. Muitos professores também não se dão conta da importância de ensinar os formato das letras convencionais e desenvolver habilidade para assinatura.

Matéria na TV Aparecida

No dia 1º de abril foi ao ar pela TV Aparecida uma matéria onde contei um pouco do que faço, com quem faço e para quem faço.
 
Confira!

Capacitações na Área da Deficiência Visual

Uma das ações que desenvolvo junto ao Setor Técnico da Pessoa com deficiência pela Secretaria Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência e do Idoso de Caraguatatuba – SEPEDI, é a capacitação para os profissionais que atuam com o atendimento ao Público.
 
Participo de muitos momentos de formação, sendo eles para empresários do concurso Empresa Inclusiva, Servidores Municipais das diversas Secretarias, profissionais que trabalham no Centro Integrado de Atenção à Pessoa com Deficiência e ao Idoso, monitores do Espaço Aventura, dinâmica e vivência nas escolas para a conscientização acerca da prevenção às deficiências, entre outros...  
 
Em 2016 foram muitos momentos assim, em que levo alguma noção sobre a deficiência visual, causas e doenças que podem levar à cegueira. Demonstro quais os recursos mais utilizados e oriento como conduzir corretamente quem não enxerga.
 
Continuemos a semear informação...
 
 
 
 

Minha Participação na Mesa Redonda sobre Educação Inclusiva na Caravana da Inclusão em Caraguatatuba

Caraguá foi contemplada na manhã desta sexta feira (15) com a 7ª Caravana da Inclusão, um projeto da Secretaria de Estado da Pessoa com Deficiência, em parceria com o Governo Municipal. O encontro ocorreu no auditório do CIAPI – Centro Integrado de Atenção à Pessoa com Deficiência e ao Idoso, no Jardim Jaqueira e contou com a presença do Prefeito Antonio Carlos; do Secretário Adjunto de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Cid Torquato; da Secretária da Sepedi, Ivy Malerba; do Juíz Federal Dr. Roberto Wanderley Nogueira; do Presidente do Conselho da Pessoa com Deficiência, Odair Valentim; entre outros.

Este ano, os temas centrais são a "Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência – LBI" e a "Educação Inclusiva".

A caravana visa também reconhecer e valorizar a atuação dos municípios na elaboração, planejamento, implementação e operacionalização de ações e projetos que garantam a igualdade, além de acesso a todos os bens, produtos e serviços, públicos e privados.

A Caravana da Inclusão passa ainda por Marília (6/5), Holambra (20/5), Capão Bonito (3/6), Rio Claro (10/6),Tietê (17/6) e Cachoeira Paulista (1º julho).

Leia mais em: http://goo.gl/rvfCXW

CIAPI é inaugurado em Caraguatatuba e Conta com uma Sala de Recursos e Tecnologias da Visão

Entre os espaços do centro, um que chama a atenção é a sala de atendimento à pessoa com deficiência visual. No local, há vários recursos de tecnologia destinadas às pessoas com esse tipo de deficiência. Uma prova de que a educação inclusiva é importante, e pode fazer diferença na vida de quem tem oportunidades nesse sentido, é a própria técnica responsável por esta sala no CIAPI, Luciane Molina.
 
Ela também possui deficiência visual e fala com bastante entusiasmo de todos os recursos disponíveis no local. "Eu sou fruto da educação inclusiva e sei o que esse espaço pode representar para quem tem deficiência visual", comentou.
 
Conforme disse, a sala atenderá um grupo de pessoas previamente cadastradas, mas também poderá servir para a realização de oficinas por quem deseja aprender o braile e, até mesmo, para visitas cotidianas, de pessoas que buscam entretenimento e poderão ter acesso à livros, jornais e outros recursos, como o acesso à internet - os computadores são capazes de codificar os textos em áudio. Há ainda um scaner, que também consegue converter o texto em áudio. "Uma pessoa com deficiência visual que quiser saber o conteúdo de um jornal pode, por exemplo, colocar nesse scaner e ouvi-lo", explicou.
 
 
 
 

 

Iniciando as Oficinas No CIAPI - meu relato

Texto escrito em maio/2015
 
Faz tempo que eu não escrevo um daqueles "textões", mas hoje não dá pra deixar guardada tanta emoção. Em quase 15 anos de profissão ainda me surpreendo com a reação de cada aluno que se depara com a possibilidade de viver além dos limites da falta da visão. Quando assumo o meu lado professora, levo comigo o mesmo entusiasmo de criança daquele dia de primavera de 1997 ao ler em Braille pela primeira vez; uma leitura que dependia somente do meu esforço, do meu entendimento. Dali pra frente o mundo coube em minhas mãos. Certamente vieram tantas outras conquistas e a maior de todas é recomeçar, porque pra mim cada nova aula será sempre um recomeço. Hoje, em especial, comecei a ministrar oficinas no Centro Integrado de Atenção à Pessoa com Deficiência e ao Idoso (CIAPI), uma sala encantadora, com recursos e tecnologias diversas, mas com um calor humano incomparável. Sim, eu ainda me emociono com a reação de encanto demonstrada em cada sorriso daqueles alunos, porque compartilho com eles das mesmas vontades, de estar em um lugar onde possam contemplar a plenitude de sua essência, sem se importarem com barreiras. Senti que traziam consigo a esperança é que estavam experimentando a liberdade, uma liberdade revestida de confiança em si mesmos. Descobriram letras soltas, estantes de livros, máquinas, mas descobriram, acima de tudo, que são capazes de escreverem seus futuros. Foi muito especial mais esse recomeço. A vida é mesmo surpreendente!!! Que sejamos o recomeço a cada dia para que nos encantemos com a simplicidade daquelas manifestações de felicidade e encanto, de vontade e gratidão.

Fundação Dorina Lança Livro Exclusivamente em Braille para Debater Acesso Universal à Cultura

Enquanto lia a matéria abaixo fiquei pensativa... poucas pessoas podem imaginar a sensação de ter um mundo de informações diante de si sem conseguir interpretá-las simplesmente porque são inacessíveis para quem não enxerga. Antes de aprender o Braille, por volta dos meus doze anos de idade, as leituras me eram oferecidas, ora através de livros com letras bastante ampliadas, cuja fadiga visual não me deixava ler mais do que duas páginas ao dia, ora pelas vozes dos meus pais, que frequentemente as emprestava para entoar histórias, contos, notícias... Sempre gostei de ler através dos olhos daqueles que, com seus timbres próprios, me faziam viajar e construir meu repertório imaginário num mundo mais do que real. Com o aprendizado do Braille veio a certeza de que eu jamais seria indiferente à leitura, ela já fazia parte da minha história e logo que consegui juntar aqueles emaranhados de pontinhos em relevo, decifrando-os em palavras e sentenças, parti pra minha primeira aventura literária. Lembro-me como se fosse "ontem", que enquanto tateava aquelas páginas amareladas pelo tempo, lia não somente um roteiro qualquer que fora materializado no papel. Muito além daquele desfecho, o que encontrei nas entrelinhas foi a sensação incrível de liberdade, de conquista, de autonomia, de coragem; coragem pra assumir que dali pra frente eu jamais seria a mesma pessoa, pois havia conquistado o "mundo" na ponta dos dedos. Ler por meu próprio esforço significou me libertar das amarras intelectuais presas nas letras grafadas, tingidas numa folha de papel lisa e que pra mim pareciam borradas. Não podia ter escolhido título melhor pra ser a minha primeira experiência literária: O Pequeno Príncipe.
Com os dedos ainda cambaleantes nas linhas e o cérebro um pouco enferrujado pelas circunstâncias,
mal conseguia estabelecer o sincronismo que precisava para interpretar aquela história tão cheia de grandes ensinamentos. Foi quando percebi, ao chegar na última página do livro, que nada havia captado da história. apenas decodifiquei palavras, num misto de ansiedade e euforia, de inexperiência e treino. Fechei o livro e reiniciei a leitura, agora muito mais confiante e certa do que estava fazendo. Depois desse foi outro, e mais outro, e mais outra... e minha vontade de ler aumentava proporcionalmente à minha agilidade tátil, a qual ia sendo aprimorada a cada novo título. Não consegui, porém, acreditar que esse mundo "mágico" não demoraria a terminar, justamente pela ausência de obras em Braille editadas e disponíveis para as pessoas cegas. É certo que eu ainda mantinha alguma esperança de entrar em uma livraria e conseguir encontrar pelo menos um título em Braille no meio de centenas, mas isso nunca aconteceu. Comemorava aos pulos e gritos cada vez que a Fundação dorina enviava alguma obra nova que havia editado e essa possibilidade foi se tornando rara até desaparecer de vez. Contudo, minha "paixão" pela leitura em Braille nunca se extinguiu, mas fui obrigada a buscar outras alternativas para satisfazer minhas necessidades literárias. Hoje leio bastante através do computador, utilizando um software que converte todas as informações visuais em fala sintetizada. É claro que a experiência não é a mesma, mas diante de um mercado editorial "egoísta" é o que temos para o momento, sem contar que a quase totalidade dessas obras digitalizadas é feita manualmente pelos próprios cegos, que scanneiam os livros e os converte para texto acessível.
as dificuldades e resistências editoriais para disponibilizaçã
o de obras acessíveis são inúmeras, mas o fato é que sempre desejei poder desembrulhar um pacote e nele conter um livro de papel; sempre desejei entrar numa livraria e sair de cabeça erguida com um livro físico nas mãos; de frequentar exposições literárias e lá tocar em uma obra em Braille.
Pode até ser uma jogada de marketing, mas que a Fundação dorina me tocou muito com essa iniciativa, é fato. Sei que não é o suficiente e nem o ideal pra conscientizar o mercado editorial da importância e necessidade de que um exemplar em formato digital acompanhe a obra em tinta ou, pelo menos, que seja disponibilizada
para quem deseja comprá-lo.
Acredito que essa iniciativa é grandiosa no sentido de provocar no público a sensação de "negligência" diante de uma minoria que se torna expressiva na medida em que a inclusão é um ato de pertencimento e de apoderamento. É uma ação que traz um impacto porque a inclusão precisa ser vista de diferentes ângulos. A pessoa que enxerga será excluída desse processo justamente porque um livro somente em Braille atinge apenas um público muito delimitado. E talvez essa pessoa que enxerga nem se importe com isso, ou nem sinta a real necessidade de ler esses textos porque, afinal, a competição é desleal; elas possuem milhares de títulos pra ler enquanto nós...
Esse fato fez-me recordar da apresentação do meu trabalho de conclusão de curso de Especialização em atendimento Educacional especializado na Perspectiva da Educação Inclusiva. Tínhamos que apresentar um pôster impresso, contendo um resumo do artigo científico produzido. Solicitei o uso de recursos para consulta ao que estaria escrito no meu pôster, como um folheto em Braille ou um notebook com leitor de tela. Imediatamente eu tive minha solicitação negada. Ora, porque eu teria que apresentar algo inacessível pra mim? Foi então que a ideia de fazer um pôster totalmente em Braille me veio em mente. Durante a apresentação estava tudo lá, na mesma disposição, com a mesma formatação, mas tudo em Braille, com o relevo num papel branquinho. Enquanto lia e explicava meu trabalho, retirava olhares de espanto e surpresa da orientadora, que nada entendera até ali. Quis, justamente, colocá-la na situação inversa, a de estar sendo excluída, porque o processo de inclusão precisa contemplar a todos, sendo uma via de mão dupla. Foi então que virei o pôster e no verso estava lá, a apresentação em tinta, como deveria ter sido desde o início, então, mostrei que a inclusão não é diferenciar ou estereotipar um grupo, uma minoria por necessitar ou por utilizar recursos diferentes, mas é contemplar, num mesmo produto, a diversidade que está presente ali.

Somente assim, através de iniciativas como a que a fundação dorina lançou, é que podemos debater o acesso universal a leitura. Que esse seja o começo... e que esse começo, por menor que seja, provoque o impacto que deva provocar.

 

http://www.sul21.com.br/jornal/fundacao-dorina-lanca-livro-exclusivamente-em-braille-para-debater-acesso-universal-a-cultura/

Quais são as Redes sociais mais Populares entre Deficientes Visuais - entrevista

 
Inclusão: quais são as redes sociais mais populares entre deficientes visuais? | EBC
Em entrevista ao programa Ponto Com Ponto Br, Luciane Barbosa utilizou sua experiência para avaliar três redes sociais famosas. Confira
 
 
 
 
 
 

sábado, 9 de abril de 2016

Dia Nacional do Braille - Feliz por comemorar esses pontos

Os pontos que encantam, que desenham por debaixo dos dedos um mundo a ser esculpido e desvendado por meio de palavras; palavras que simbolizam e ressignificam cores e imagens das cenas de uma vida construida em meio a sombras e luzes.
O Braille como um patrimônio da humanidade, embora ainda oculto para muita gente. essa gente que talvez não tenha sido apresentada a esse universo tão mágico; esse Braille sufocado pela tecnologia, mas que humildemente se renova para acompanhar o progresso do mundo.
Hoje é comemorado o Dia Nacional do Sistema Braille e minha homenagem a esse código de leitura tátil e escrita vem reforçar ainda mais a minha gratidão por tê-lo aprendido em minha adolescência. O Braille transformou a minha vida pra sempre!
Que possamos provocar no outro uma reflexão acerca da importância de se valorizar o Braille para o ensino dos cegos, mas também que ele possa servir de inspiração para quem enxerga poder descobrir seus encantos e belezas. Há muito mais cores refletidas numa folha branca em relevo do que os olhos podem enxergar. Há um colorido muito mais intenso  quando você abre os braços para alcançar com os dedos o infinito de possibilidades que o universo oferece.
Então, que seja intenso, que seja transformador e que seja inesquecível cada ponto marcado em relevo na sua, na minha e na nossa vida, como uma tatuagem de inspiração para o acesso ao conhecimento, à informação e ao mundo!
 
Feliz Dia Nacional do sistema Braille
 
#DiaDoBraille
#SouGrata
 
 
 
 
 
 

sábado, 22 de agosto de 2015

Reportagem sobre a Praia Acessível em Caraguatatuba - Muito Mais, Band Vale

Foi domingo (16) cedinho na Praia Acessível em Caraguatatuba a gravação da matéria para o programa Muito Mais da  Band Vale. Andei de caiaque pela primeira vez. Era um daqueles sonhos quase bobos e sem perspectiva de realização. Ao mesmo tempo que eu era movida pela vontade, o medo me paralisava. Gosto de desafios, de descobrir que meus alcances são maiores do que os limites. Conduzida pela coragem decidi encarar! O instrutor, meu amigo e parceiro de trabalho na Secretaria municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência e do Idoso,  Luis, me mostrou o remo, me ajudou a entender o movimento e me explicou tudinho. É claro que me passou muita confiança, mas o colete salva-vida também esteve presente. Quando Luiz perguntou: "está pronta?" Estava em minhas mãos a chance de realizar um sonho, de sentir o mar por outra perspectiva, de abraçar aquelas ondas e remar. Disse SIM com convicção. Mas aí ele me perguntou se eu estava com medo e meu SIM soou ainda com mais força. Lá fomos nós. A sensação é simplesmente maravilhosa. Relaxei e curti cada segundo. O calor do sol, ora no rosto, ora nas costas, o barulho das ondas cada vez mais distantes, o balanço da água passando por nós, o cheiro de mar que me remete à liberdade. Só tenho que comemorar e agradecer por tão linda oportunidade.
 
E foi ao ar nesse sábado (22), às 11:30H o programa Muito Mais e a reportagem sobre a Praia Acessível, a Academia ao Ar Livre, a Estação Energia e as ações desenvolvidas pela SEPEDI em Caraguatatuba. Confira aqui!
 
 

As aulas de ciências e os Materiais Inclusivos Adaptados

Conheci o professor Luiz em Caraguatatuba faz pouco mais de três semanas, num bate-papo informal sobre adaptações de materiais, uma proposta de trabalho de final  de curso que ele teria que apresentar. Enquanto ele me questionava sobre as características de um bom material inclusivo, fiquei imaginando o que o teria levado a escolher esse tema e, principalmente, os motivos pelos quais se interessaria pela deficiência visual. Ele queria saber como poderia representar uma célula, de modo que fizesse sentido e criasse referências táteis significativas para quem não enxerga, entretanto, que o mesmo material pudesse servir também para quem vê.
 
Busquei rapidamente em minha memória qual teria sido o meu primeiro contato com a imagem de uma célula. Não sei se pela falta de uso ou pela ausência de referências visuais, lembro-me vagamente de uma apostila com um desses desenhos contornados, enquanto eu ainda conseguia enxergar. Estudei um período tendo o suporte de lupas, letras ampliadas, desenhos com contornos bem marcados devido a baixa visão. Quando todos esses recursos se esgotaram e eu conheci o Sistema Braille, esses estudos, incluindo os de células, ficaram restritos aos conceitos verbais. Numa época em que falar sobre inclusão ainda era novidade, tive o privilégio de conviver com verdadeiros mestres. Apesar disso, a ausência desses materiais inclusivos e adaptados foi um detalhe que não desqualificou o mérito de uma educação pautada na solidariedade, qualidade e boa vontade, além de contar com uma ótima  parceria familiar.
 
Gostava de ciências, de desvendar mais sobre a vida. Passava horas criando mentalmente as combinações de um heredograma. Imaginava a eletrosfera, as moléculas em cada estado da matéria, ora presas umas às outras, ora mais distantes e mais agitadas. Foram essas as referências abstratas que criei a partir dos conceitos aprendidos. Foi também um professor de ciências da escola onde estudei, em Guaratinguetá,  que percebeu que o pouco que eu enxergava já não estava sendo suficiente e que era hora de aprender o Braille. Sua insistência me incomodava, eu tentava disfarçar e mudar de assunto, mas ele sempre me cobrava que conversasse com meus pais. Devo a ele essa descoberta tão incrível, de tantas possibilidades que se abriram e, principalmente dessa minha relação tão intensa e vital com a educação que começou dali.
 
Mais tarde, porém, tornei-me pedagoga. Foi quando uma aluna chegou com o desafio de aprender como eram as células. Eu trabalhava em uma sala de recursos ainda em 2005. Decidi não repetir conceitos decorados de um livro, mas fazer diferente. Com a parceria da minha mãe, montamos alguns materiais utilizando formas, texturas, e objetos diversos. Os materiais produzidos ficavam cada vez mais interessantes, porque agregavam elementos táteis, formas e também cores, servindo para todos os que desejassem conhecer o esquema celular. Voltei a estudar porque tinha que dar sentido e significado real aos conceitos memorizados nos ensinos fundamental e médio para repassá-los à minha aluna. Recebi alguns outros materiais produzidos em uma grande imprensa Braille e percebi o quão importante é proporcionar o conhecimento concreto daquilo que não conseguimos ver. Nesse momento eu passei a conhecer, de fato, como eram as células.
 
Lixas, barbantes, botões, tecidos, canudos, palitos, emborrachados, papeis e papelões foram a matéria-prima que deram forma a dezenas de esquemas. As imagens saltavam do papel, em modelos bidimensionais, com relevo suficiente para serem percebidos pelo tato. Porém, coloridos o bastante para apoiar também quem enxerga. Assim o verdadeiro material inclusivo é aquele que agrega características diversas sem contudo, perder sua  essência. Só que não basta contornar traços com barbante, nem colar lixa nos espaços pintados. Muito menos espalhar botões ou canudinhos para preencher e  delimitar uma área colorida.
 
Foi então que ao ser abordada por aquele professor de Caraguatatuba, tive a certeza de que sua iniciativa não se limitava a uma busca superficial que respondesse ao imediatismo de um trabalho de final de curso. Aquelas indagações iam muito além de conhecer materiais adaptados ou obter respostas objetivas sobre como pessoas cegas poderiam conhecer um esquema celular. Ele me contou sobre suas ideias para produção de materiais adaptados utilizando acetato, marcando esse plástico de modo que o relevo fosse percebido pelo tato. A conversa rendeu muitas outras novas ideias com base nas experiências que tenho com questões que envolvem a percepção tátil, sua vontade em transformar conceitos em algo palpável e a nossa disposição em levar esses conhecimentos para outros professores de ciências, garantindo o protagonismo deles no processo de inclusão.
 
Surgiu aí uma parceria entre a Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência e do Idoso, setor onde eu trabalho como técnica nos assuntos referentes à comunicação inclusiva e à Deficiência Visual, a Secretaria de educação e o setor de educação inclusiva para oferecermos uma formação para os professores de ciências sobre Adaptação de Material Didático Inclusivo. Durante o planejamento para essa ação, que ocorreu no dia 10 de agosto em um HTPC, selecionei algumas dicas que transcrevo abaixo.
 
Características a serem observadas em materiais inclusivos adaptados:
- agregar elementos táteis e visuais, tomando o cuidado para que as cores também sejam representadas com contraste, para atender pessoas com baixa visão;
- Uso de texturas para representar as partes de uma figura. Geralmente texturas opostas ou bem diferentes, quando estão uma ao lado da outra. Uma lixa para representar o núcleo da célula, mantendo o citoplasma com o fundo liso ou aveludado  e o barbante para contornar a membrana, por exemplo;
- Não existe um padrão para as texturas. Nem sempre os núcleos celulares  precisam ser representados pela lixa, porém se as figuras fizerem parte de uma sequência dentro do mesmo conceito, é importante manter uma semelhança até o final da unidade;
- As linhas que compõem o contorno em relevo de uma figura devem ser contínuas, para evitar que os detalhes se percam em linhas quebradas. Os elementos de uma imagem precisam ter começo, meio e fim;
- Uso de legenda. Sempre quando houver mais de 3 texturas diferentes, convém pensar numa legenda para facilitar a identificação das partes da figura;
- Suprimir excesso de detalhes e evitar o uso de linhas emaranhadas umas por cima das outras, além de preferir materiais com tamanhos perceptíveis ao tato, nem tão pequenos, nem tão grandes e grossos. Manter uma estética tátil e visual pertinente ao que deseja ensinar;
- Atentar-se para a ausência de textura e se essa característica também não está relacionada ao conceito. Por exemplo, num material sobre as fases da lua, temos a lua nova representada com lixa, enquanto a lua cheia mostrava um círculo liso, sem textura. Já ao contrário disso, temos que a lua nova é ausência e a lua cheia é a presença de um elemento visual no céu;
- Observar o tamanho das figuras representadas. Quanto maiores, mais complexo será compreendê-la em sua totalidade. O tato só é capaz de captar partes pequenas para interpretar a figura como um todo. Se forem grandes em demasia, as mãos precisam buscar as características percorrendo também um espaço maior;
- Dependendo da figura que se quer representar, convém fazer a decomposição dos elementos. Para a bandeira do Brasil, por exemplo,  pode-se mostrar primeiro um retângulo liso, em seguida um losango áspero, depois um círculo aveludado. Inserir as estrelas, a faixa com a mensagem "Ordem e Progresso" e por último montar a bandeira conservando todas as características táteis anteriores;
- Evitar materiais que dificultem o deslizar dos dedos, também que não ofereçam relevo suficiente, nem que priorizem um único elemento tátil. Por exemplo, ao representar as partes de um vegetal jamais fazê-la somente com barbante;
- Lembrar que nem sempre dois materiais diferentes oferecem também experiências táteis diferentes. A Lixa e o Gliter provocam sensação semelhante de aspereza;
- Em ciências, as formas são muito importantes. Por isso identifique qual é a finalidade daquela figura, se pretende trabalhar formato ou outras características concomitantes, se é viável manter espaços vazios ou diferenciá-los com texturas.
 
Além de ter trabalhado todos esses aspectos, falei sobre quem são as pessoas com deficiência visual e como interagem com o meio, recursos para leitura, escrita e locomoção. Demonstrei como guiar uma pessoa cega e contei um pouco da minha história. Aquela célula inicial foi se multiplicando. Ganhou forma, se fez viva na tentativa de incluir uma nova proposta e um novo olhar para a inclusão de alunos com deficiência no ensino regular.
 
Essa formação foi especial para mim por dois motivos: resgatar as tantas células que me fizeram descobrir o quão responsáveis somos pelo nosso futuro e que ao se multiplicarem transformam a vida de muitas pessoas. Não se pratica a inclusão apenas pensando em maneiras diferentes, adaptadas para quem não enxerga, não ouve, não fala, não tem movimentos. A inclusão é possível quando agregamos elementos, conceitos, práticas, métodos e técnicas para que todos possam participar. Certamente também para os alunos que enxergam, produzir uma célula com barbante e lixa seja tão mais significativo do que olhar a mera figura estampada nos livros. E quando os professores se deparam com esse desafio, conseguem perceber que podem e conseguem ser criativos e empreendedores em suas aulas diárias.
 
 
Notícias
 
Caraguatatuba, 12 de agosto de 2015.
 
A primeira formação continuada do segundo semestre letivo, voltada para professores de Ciências da Rede Municipal de Ensino, abordou o ensino inclusivo em sala de aula. O encontro ocorreu na EMEF Dr. Carlos de Almeida Rodrigues (Indaiá) na última segunda-feira (10/8/2015).
 
O professor Luiz Alfredo de Paula, responsável pela formação, disse que a proposta é despertar a criatividade dos educadores para a construção de materiais e atividades que atendam estudantes com baixa visão ou cegueira, como também os demais.
 
A pedagoga Luciane Molina, que é deficiente visual, apresentou vários tipos de materiais disponíveis no mercado, confeccionados com texturas e formatos diferenciados que atendem a todos. Ela também explicou a diferença de uma pessoa cega para outra com baixa visão, entre material adaptado e material inclusivo, como se portar diante de uma pessoa cega, os recursos para mobilidade, entre outros assuntos.
 
Os professores do setor de Educação Inclusiva, que atuam nas salas de recursos, também abordaram atividades para serem desenvolvidas pelos colegas da disciplina de Ciências que lecionam para estudantes com deficiência visual.
 
O professor Carlos Roberto Dias, da EMEF Profª Maria Moraes de Oliveira (Jardim Gaivotas), disse que a formação proporcionou uma nova perspectiva para o trabalho. "Não sabia que, no mercado, existem vários materiais para atender este estudante, especificamente. As dicas também foram importantes. Além disso, surgiram ideias novas nesse encontro", afirmou.
 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Concurso Empresa Inclusiva em Caraguatatuba

Por mais que o conceito de sociedade inclusiva aproxime pessoas com e sem deficiência, é bastante provável que as diferenças sejam percebidas, não como um estigma, mas de modo a reforçar uma maneira de se comunicar ou de se locomover que não são os praticados pela maioria. Como pessoa com deficiência visual, percebo, nesses últimos anos, uma tentativa de aproximação de realidades que se fundem dentro de um  mesmo propósito: que pessoas com deficiência se sintam produtivas exercendo um ofício; que sejam também usuárias de serviços, consumidoras de produtos; que saiam de casa para conquistar seu espaço; que sejam visíveis, protagonistas e cidadãs.
 
Depois de mais de uma década eu descobri que a frase poética acima poderia se encaixar dentro da minha realidade. Sempre acreditei que as mãos enxergam tanto quanto a visão; que a audição, o olfato, o paladar davam ótimas pistas para interpretar o mundo; e que ser guiada por alguém era mais do que um ato generoso, é amizade, é cumplicidade, é saber que juntos conseguimos ir mais longe.
 
Uma empresa não se constitui apenas de empregados e empregadores.  O mercado de trabalho para pessoa com deficiência requer que a instituição pública ou privada acredite no que o outro é capaz de oferecer. E quando nos sentimos mais iguais na multidão é hora de comemorar, porque a deficiência deixou de ser visível para se tornar condição secundária. Entretanto ela não deixou de existir.
 
Parece simples para alguns, complexo para outros. O desafio de uma empresa inclusiva não está apenas na adaptação de um posto de trabalho, nem somente  na contratação para cumprir a Lei de Cotas. O desafio está no dia-a-dia, no relacionamento interpessoal, nas barreiras atitudinais superadas. hoje eu posso comemorar essas conquistas invisíveis que nos dão visibilidade e muita alegria. Agradeço a cada um que compartilha comigo aquele  "bom dia" pela manhã, um projeto finalizado, uma meta atingida, uma ajuda necessária, uma parceria de sucesso... ser equipe é olhar quem está em volta.
 
Estou aqui  para divulgar uma das ações que mais me alegram, como pessoa com deficiência e hoje também como funcionária da Secretaria Municipal dos direitos da Pessoa com Deficiência e do Idoso. Trata-se do Prêmio Selo Empresa Inclusiva, descrito abaixo. Conheça, divulgue e faça parte dessa iniciativa tão necessária para a inclusão da pessoa com deficiência.
 
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As inscrições para o concurso "Empresa Inclusiva" terminam no dia 15 de agosto. A Prefeitura de Caraguá, por meio da Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência e do Idoso, promove o concurso pelo segundo ano consecutivo. A premiação será no dia 3 de dezembro, data em que se comemora o "Dia Internacional da Pessoa com Deficiência".
 
O concurso foi instituído pela Lei Municipal 2.158, de 25 de abril de 2014. O "Selo Empresa Inclusiva" será concedido para empresas locais, de diferentes categorias, que se destacam na implementação de ações de acessibilidade e da empregabilidade de pessoas com deficiência e idosas para inserção no mercado de trabalho, acesso e participação em bens e serviços.
 
Podem participar do programa estabelecimentos de Comércio e Serviços de Caraguá nas seguintes categorias: microempresa (até nove funcionários); pequeno porte (10 a 49 funcionários); empresa de médio porte (50 a 99 funcionários); e grande porte (acima de 99 funcionários).
 
As empresas terão acompanhamento e orientações técnicas gratuitamente, oferecidos por profissionais da Prefeitura.
 
O primeiro lugar nas categorias empresa de grande e médio porte receberá R$ 10.000,00 e troféu. O primeiro lugar nas categorias pequena e microempresa receberá R$ 8.000,00 e troféu. O selo poderá ser utilizado nas veiculações publicitárias para promover serviços e produtos da empresa. Os vencedores também terão publicidade nos eventos da Prefeitura de Caraguá.
 
Para concorrerem, as empresas devem se inscrever na secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência e do Idoso, na Avenida Rio de Janeiro, 860, bairro Indaiá, de segunda a sexta, de 8h às 12h e de 14h às 17h.
 
Critérios
 
As empresas participantes serão avaliadas por uma comissão julgadora, formada por profissionais interdisciplinares que já desenvolvem trabalhos na área de inclusão e acessibilidade. Dois critérios serão julgados: Empregabilidade e Acessibilidade.
 
Na primeira área serão analisados os seguintes itens: contratação e tempo de serviço; condições de trabalho; quantidade de pessoas com deficiência e idosos; tipos e graus de deficiências; variação de Idade; capacitação referente à atividade e função profissional; sensibilização com a equipe de trabalho e valorização.
 
Na outra área, as questões: atendimento prioritário; estacionamento ou área de embarque e desembarque; calçada e entrada do estabelecimento; circulação; ambientes; mobiliário interno; sanitários; sistema de comunicação e sinalização; e tecnologia assistiva empregada.
 
Fonte: Secretaria de Comunicação Social de Caraguá
 

terça-feira, 23 de junho de 2015

A Pré-Conferência dos Direitos da Pessoa com Deficiência de Caraguatatuba

Viver esse momento histórico de construção de propostas e participação na 2ª Conferência Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência de Caraguatatuba tem sido uma experiência única, de aproximação e de reconhecimento da importância da presença da pessoa com deficiência. Contei um pouco da minha história, coloquei o quão somos sujeitos únicos, mesmo dentro do nosso grupo. Resgatar a história é provocar a reflexão para que os avanços alcancem cada um de nós. Agradeço em especial a SEPEDI pela oportunidade de reconhecer o nosso protagonismo e caminhar conosco rumo a inclusão.
 
Um amplo debate sobre as questões que envolvem a pessoa com deficiência no município e sugestões para a construção de um projeto estadual e nacional que atenda os anseios neste segmento da sociedade, se dará na próxima terça, dia 30, na Conferência dos Direitos da Pessoa com Deficiência. O evento promovido pelo Governo Municipal por meio da secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência e do Idoso será no Instituto Federal de São Paulo, Campus Caraguatatuba, a partir das 8 horas.
 
O tema será "Os desafios na implementação da política da pessoa com deficiência: a transversalidade como radicalidade dos direitos humanos". A temática será dividia em três eixos: Eixo 1 – Gênero, raça e etnia, diversidades sexual e geracional; Eixo 2 – Órgãos Gestores e Instâncias de Participação Social; e Eixo 3 – A interação entre os poderes e os entres federados. Isso para abordar de forma ampla e agregadora a política da pessoa com deficiência tanto no que se refere às políticas setoriais, quanto no diálogo com outras temáticas ligadas aos direitos humanos: gênero, raça, orientação sexual e ciclos de vida.
 
Ontem foi realizada a pré-conferência na secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência, no Indaiá. A reunião contou com intérprete da Língua Brasileira de Sinais (Libras) e material em Braille para os deficientes auditivos e visuais, respectivamente.
 
A deficiente visual, Luciane Molina, participou pela primeira vez de uma pré-conferência e confirmou sua presença na conferência, na próxima semana.
 
"Foi importante porque as discussões foram com as próprias pessoas com deficiência, seus problemas e conflitos, no dia-a-dia. Fomos os protagonistas do debate. Houve também interação, por exemplo, dos cegos com os surdos e isso também foi relevante para estabelecer vínculos e ações mútuas. As propostas levantadas realmente atendem às necessidades cotidianas da pessoa com deficiência. Esse encontro permitiu a união de várias pessoas, desta forma a forma do segmento se amplia", afirmou Luciane.
 
Também foram realizadas pré-conferências pelo Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência, setor de Educação Inclusiva da secretaria de Educação, Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de Caraguatatuba (APAE), Associação de Apoio ao Desenvolvimento Humano Acalento, Setor de Reabilitação da secretaria de Saúde, no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS).
 
A participação na Pré-Conferência garante o direito do participante se candidatar à eleição ao cargo de delegados e também para votação das propostas na Conferência.
 
Serviço: Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência e do Idoso – Avenida Rio de Janeiro, 860, Indaiá. Telefones: 38977023 ou 0800-774-7055.
 
IFSP - Avenida Rio Grande do Norte, 450, Indaiá.
 
 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Finalizando Curso de Ubatuba

Cada turma de professores é única; cada curso tem um gostinho especial. A gente aprende a compreender que uma formação jamais será igual a outra porque cada singularidade faz com que o coletivo incorpore novas necessidades, porque  surgem  novas dúvidas e o objetivo é  que muitos esclarecimentos venham trazer um conhecimento contextualizado.

 

Desde 2007, quando fiz a primeira formação em Grafia Braille, aprendi a me despedir sem ir embora. Aprendi que nunca mais serei a mesma e que é inevitável afastar-me de uma realidade que acolheu a deficiência visual como algo que merece atenção, carinho e respeito.

 

São desafios que vamos desvendando juntos(as) com uma única finalidade: atendimento especializado ao aluno com deficiência visual. eu me orgulho demais de também ser personagem de tantas histórias e através de tantas mãos poder multiplicar essas informações, transformando-as em ações efetivas.

 

Hoje foi o dia de dizer "muito obrigada" a turma de Ubatuba. Finalizamos nossa formação em Grafia Braille - "Semeando Leitores e Escritores Competentes". Durante sete lindos meses estivemos reunidas, aprendendo, ensinando e crescendo acima de tudo.

 

Meu agradecimento a cada cursista que esteve presente nas aulas, meu reconhecimento à Secretaria Municipal de Educação e o meu "até breve", porque uma formação continuada não se encerra com a entrega do diploma, mas sim permanece viva na essência de cada professor junto ao seu aluno com deficiência visual.

 

Felicidade é o que melhor define esse momento, apesar da saudade que já é forte...

 

Ubatuba, conte sempre comigo!

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Feliz Natal

Vivi um 2014 incrível e especial. Muitos sonhos realizados, desafios superados e mais 365 passos guiados pela fé, com amor e confiança. Não existe um recomeço pra quem já tem uma história e eu tenho orgulho em dizer que a beleza dessa história está nos atores que chegam e permanecem nas cenas mais queridas da nossa vida. 

 

Que o verdadeiro espírito do Natal consiga morada no seu coração, porque o Natal é todo dia, em cada gesto, em cada ação. Está num abraço, numa palavra amiga, ou apenas na presença daqueles que amamos.

 

Aos meus eternos atores mais que especiais, aos que chegaram pra fazer do meu 2014 mais colorido e a todos os meus amigos e familiares desejo que "Papai do Céu" leve a estrela mais brilhante para iluminar cada passo percorrido. Que o amor seja o companheiro eterno, que a saúde, a felicidade, a prosperidade, a fé e a coragem caibam dentro do embrulho com o laço mais bonito e apertado, assim como um abraço que simboliza todo o meu carinho e minha eterna gratidão.

 

Obrigada por ter feito o meu ano tão especial e que 2015 seja o melhor ano de  nossas vidas.

 

Feliz Natal

Ho! Ho! Ho!

 

Luciane Molina

 

Descrição da imagem para pessoas com deficiência visual: fotografia de uma mandala com pedaços de fitas coloridas penduradas em todo o contorno do círculo. No centro tem um espírito Santo e flores vermelhas ao seu redor.

 

Peça que acabou de ser confeccionada pelas mãos de Lucia Molina.

 

 

 

sábado, 13 de dezembro de 2014

Dia do Cego, dia de santa Luzia: meu agradecimento

Nos últimos 32 anos, o dia 13 de dezembro é dedicado a ela, Santa Luzia, que independente de princípios religiosos me faz estar ligada diretamente a fé. Mais do que uma tradição, ano a ano meu encontro com ela serve para estreitar uma relação de gratidão. Cresci entendendo o mundo por um jeito diferente de enxergar, nem melhor nem pior, mas o meu jeito, com as minhas referências, emoções, sons, cheiros e sabores. A vida tem o colorido que a gente se permite refletir e fui descobrindo que nesse percurso somos guiados por algo muito maior e muito mais forte; que o "não enxergar" fisicamente é apenas um detalhe tão pequeno se comparado a tudo que podemos realizar e de tantas belezas que nos cercam. Um detalhe que pra mim não faz diferença na construção do que sou hoje.

Se eu sou capaz de sentir o delicioso perfume das flores espalhadas pelo caminho, foi também porque eu ousei tocar seus espinhos. Faço questão de agradecer com vários sorrisos no rosto, porque eu estou sendo quem exatamente planejei ser.

Hoje também é o dia nacional do cego. Mais do que uma bandeira levantada para a inclusão, a deficiência visual faz parte da minha essência, é meu estilo de vida. Meus olhos são o meu maior troféu, porque eu não dependo deles pra fazer qualquer julgamento, nem será a falta dessa função a justificativa para que eu não alcance os meus objetivos. Temos que aprender que somos muito mais do que nossos olhos são capazes de enxergar e esse é o maior legado de uma vida inteirinha.

Tenho motivos suficientes pra comemorar essa data e para agradecer incansavelmente
o universo.

Viva santa Luzia!

‪#‎DiaDoCego‬
‪#‎SantaLuzia‬
‪#‎ObrigadaSantaLuzia‬

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Teatro Cego em Caraguatatuba

Como de costume, a cada nova experiência venho trazer meu relato a vocês. Hoje foi a noite do Teatro Cego com a peça "Acorda, Amor!" da companhia Caleidoscópio Comunicação & Cultura.
 
O espetáculo fez parte do V Fórum Inclusivo da Pessoa com Deficiência de Caraguatatuba e encerrou a semana de atividades que aconteceram desde terça-feira no município.
 
Contracenaram na peça atores com e sem deficiência visual e toda trama aconteceu no escuro completo. É baseada nas canções de Chico Buarque que foram executadas durante o espetáculo. Conta a história de quatro jovens lutando contra a ditadura militar. Enquanto tentam driblar os militares,  Três rapazes disputam  o  amor da moça que já está comprometida com um deles.
 
Antes do início da peça, os atores apresentaram a proposta do teatro para o público e, com bastante delicadeza tentaram manter a plateia tranquila. De fato há muita ansiedade por parte das pessoas, que desconhecem seus próprios limites ao lidar com uma situação inusitada: ficar praticamente 60 minutos na total escuridão. Hoje o dia estava bastante claro e o sol demorou a se pôr. Foi preciso aguardar um pouco mais para que a largada fosse dada.
 
A técnica usada por uma das atrizes ao conversar com o público nesse momento que antecedeu a peça me chamou bastante atenção:  Fazer a primeira fala fora do microfone para que as pessoas cegas presentes posicionem-se corretamente tendo como referência a voz natural  e não a caixa de som do teatro. Percebi que eles estão super ligados com essas questões, embora a apresentação não seja exclusiva para cegos.
 
Essa é a grande "sacada" do teatro cego, pois coloca todo mundo em igualdade de condições. Digo-lhes que me senti igual na multidão. Ali eu não precisei me preocupar se meu entorno era acessível, a cegueira não era mais  exclusividade minha. Apenas com uma lanterna, fomos conduzidos pela produção até as cadeiras que foram divididas em quatro setores. A qualquer momento as pessoas poderiam manifestar o desejo de saírem dali caso sentissem medo, pânico ou passassem mal, porém não era permitido retornarem.
 
Confesso que eu estava curiosa em observar a reação das pessoas aos estímulos não visuais presentes na apresentação. conhecia mais ou menos a proposta, embora essa tenha sido a primeira vez que assisti ao espetáculo. E quando teve início, a trilha sonora um pouco alta me incomodou, principalmente porque eu estava do lado da caixa de som e não me agrada o barulho exagerado em qualquer evento que eu participe.
 
Começaram os diálogos, as movimentações no palco, a interação com o cenário e o envolvimento do público com a história, ora com risos, ora com espanto ou surpresa. E como é para um cego assistir a um espetáculo totalmente no escuro?
 
Foi tão comum como assistir a uma peça com "luz, câmera, ação!"
 
Mas para as pessoas ali presentes, alguns detalhes ficaram muito mais perceptíveis no escuro, embora esses já costumam servirem de referência dentro do meu repertório de sensações acerca do que está acontecendo ao meu redor, incluindo o teatro. Achei fantástico compartilhar com muita gente como eu e outros cegos percebemos tudo isso! É interessante descobrir, apenas pela voz dos atores as suas  posições no palco e imaginar onde estão. A respiração, as emoções, a entonação de voz ficaram  muito mais reais e deu até pra arriscar suas fisionomias nos diálogos. Outros recursos de sonoplastia deram muita veracidade para a obra e, o que mais me chamou a atenção foram os aromas. O cheiro do café, do bife acebolado, da pizza, do sabonete, do cachorro quente deixou todo mundo de água na boca de verdade. Tiveram  até gotas d'água que saíram diretamente do balde para a plateia. Passos, batida de porta, balançar de chave, talheres batendo, cadeiras sendo arrastadas, tiro, rádio antigo com aquele som ainda chiado, foram algumas das referências que permitiu que esse momento se tornasse muito mais colorido do que qualquer jogo de luz.
 
Enfim, sou grata por participar desse momento tão mágico e tão instrutivo, ao mesmo tempo que levou para as pessoas uma oportunidade tão real para descobrirem que as imagens vão além da visão. É possível construir todo um repertório de imagens através dos outros sentidos, que estão muito além do medo e das emoções. Parabéns ao teatro Cego por levar a ideia de que a luz não é o limite entre o ver e o não ver.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Teclados de computador para cegos: com Braille ou não?

O uso de teclado em Braille para computadores tem sido tema recorrente nos e-mails que chegam na minha caixa de entrada. Esses questionamentos revelam pelo menos duas percepções acerca da cegueira: a preocupação em oferecer ferramentas adaptadas para essas pessoas e o reconhecimento do Sistema do Braille como elemento associado diretamente a falta da visão.
 
Sobre a primeira percepção, adaptar ferramentas para que pessoas cegas possam utilizar um computador, por exemplo, revela também a preocupação em garantir acessibilidade, embora essa acessibilidade se distancie do conceito do desenho universal, porque tem como foco apenas satisfazer a necessidade da pessoa que não enxerga. Nesse caso a ideia é usar um teclado em Braille para os cegos enquanto pessoas que enxergam continuam usando teclados convencionais. São dois produtos diferentes para conseguir um mesmo resultado: a digitação.
 
Já o reconhecimento do sistema Braille como elemento associado diretamente a cegueira, por um lado mostra que é possível desenvolver atividades de escrita e de leitura através do tato, mas também evidencia um estigma sobre a complexidade desse método. Muitos cegos hoje não dominam o Braille por fatores que vão desde a perda visual, aceitação e pouco domínio técnico dos profissionais que lidam com o ensino do Braille em fase inicial de alfabetização ou reabilitação para jovens e adultos.
 
Em outras palavras, um teclado em Braille assume um lugar exclusivo e não de recurso adaptado, porque lida com questões que ultrapassam as barreiras físicas para construir valores e  ideias ligadas ao aspecto sensorial e perceptivo de quem não enxerga. Nesse sentido, particularmente prefiro não utilizar teclados em Braille. Nós que trabalhamos com tecnologia assistiva temos essa preocupação por alguns motivos:
 
1. Como o programa leitor de tela  trabalha com áudio, se as teclas forem etiquetadas em Braille, as duas sensações diferentes  provocam conflitos. Então a pessoa cega precisa ficar atenta ao tato e não desviar a atenção do áudio e vice-versa. a duplicidade de reconhecimento sensorial pode gerar  limitações e lentidão no uso do equipamento porque a pessoa precisa identificar a letra que está debaixo dos dedos enquanto ouve o som dessa mesma letra.
 
2. Quando se aprende a digitar usando os cinco dedos de cada mão, como em aula de datilografia, não é permitido que se olhe no teclado para não desviar a atenção. assim também para o aluno cego que se tatear o teclado seria o mesmo que estar olhando.
 
Em alternativa ao teclado Braille e seguindo o conceito de que um único produto pode ser utilizado em comum entre pessoas cegas e também por quem enxerga, recomendo que, para iniciantes, algumas teclas sejam marcadas apenas para permitir a localização e uma melhor referência. Para isso eu utilizo pedrinhas de straz  auto-colantes. Como todo teclado já possuem marcas nas letras "f" e j", as marcações podem acompanhar essa referência também na fileira de cima e na fileira de baixo, sendo as teclas "r", "u" e as teclas "c", "n". Para as teclas de comando ou funções, recomendo marcar as seguintes: "control", "tabe", "Shift" de ambos os lados. Também o "home" e "end.", "esc.", "f4", "f8", "f11" e "f12",  "insert" e se houver necessidade o número "5". A tecla do espaço já permite a identificação direta do alt. a esquerda e também do alt. GR a direita. Como a tecla referente ao menu iniciar também possui uma marca diferenciada, não há necessidade de marcá-la, a menos que também for lisa como as demais e provocar dificuldade extra. A tecla "enter" também possui um tamanho e um formato diferenciado e, a partir dela, pode-se localizar outras teclas próximas como "BackSpace" e acentos/diacríticos. As setas direcionais geralmente formam uma Cruz de fácil identificação.
 
E assim cada aluno/usuário e cada professor pode desenvolver a técnica mais adequada para buscar referências nas teclas. É importante lembrar que tais marcas precisam ser suprimidas aos poucos e evitadas por um  período prolongado. assim que se conseguir um desempenho satisfatório, descole as pedrinhas e exercite a digitação Às cegas.
 
Espero que com essas dicas eu tenha esclarecido a maioria das dúvidas a respeito do uso de teclados em Braille por pessoas cegas.
 
 

terça-feira, 4 de novembro de 2014

As Placas de sinalização Braille e o Conceito de sustentabilidade

    As Placas de Sinalização Braille e o conceito de sustentabilidade
 
Luciane Molina *
 
A confecção de placas de sinalização Braille usando latinhas de cerveja ou refrigerante surgiu da ideia que tive para aplicar em um projeto que desenvolvo na cidade de Caraguatatuba, através da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e do Idoso.
 
Precisava de um material que fosse durável e, ao mesmo tempo flexível. Também tive que pensar em algo que trouxesse uma sensação agradável ao tato e que permitisse uma saliência suficiente para garantir a leitura precisa entre os cegos.
 
Nós, que trabalhamos com o Braille, quase sempre precisamos criar e adaptar algo, ou seja, empreender, buscando soluções viáveis para atender Às necessidades de um determinado público ou grupo social. Meu olhar para acessibilidade sempre me permitiu questionar a falta dela, mas principalmente encontrar meios para sua efetivação.
 
A sustentabilidade também cabe dentro de um projeto acessível e foi aliando os dois conceitos que experimentei inovar, usando latinhas de alumínio para a produção da sinalização dos ambientes e dos espaços de uso coletivo. Fiz os primeiros testes, descartei alguns modelos e aprimorei outros. foi preciso descobrir como deixar a latinha mais plana possível e encontrar a pressão ideal para obter uma saliência cujos pontos em relevo ficassem bem marcados, porém sem serem furados. Também foi necessário encontrar uma maneira para que as laterais da latinha não ficassem cortantes, fixando-as em uma base para que posteriormente as placas fossem colocadas nas paredes, portas, guichês, balcões, objetos, entre outros.
 
Outro detalhe foi pensar em materiais que pudessem ser utilizados tanto em ambientes internos quanto nas partes externas, padronizando-as conforme um modelo base. E então cheguei num resultado ideal!
 
Primeiro as latinhas coletadas são lavadas e abertas com auxílio de uma tesoura de ponta. Em seguida, são colocadas sobre um pano/feltro, com a parte metálica voltada para baixo e enroladas como um rocambole, no sentido contrário. Esse movimento fará com que elas fiquem mais planas. Também  podemos passá-las com ferro quente numa superfície de madeira, lembrando sempre de colocar um pano em cima.
 
Para escrever as palavras em Braille, uso um instrumento de escrita Braille manual, denominado de reglete. É indispensável que o modelo da  reglete seja de alumínio. Para marcar o relevo uso um punção com a ponta arredondada e menos pontiaguda. A saliência ideal é conseguida com uma média pressão sobre a lata, para que os pontos não ultrapassem e rasguem a folha metálica. A pressão tem que ser constante e com alguns movimentos circulares em torno do mesmo eixo, mantendo o punção encostado na base até sentir que o ponto ficou rebaixado. Não consegui resultado satisfatório com a máquina Perkins, de datilografia Braille, por forçar muito as suas paletas de pressão e quando consegui marcar os pontos, estes ficaram perfurados. quando acontece isso, a leitura se torna desagradável, o relevo fica áspero, segurando o dedo ao deslizar sobre as letras.
 
Depois da escrita pronta, as plaquinhas são recortadas deixando 0,cm de distância nas quatro faces, com relação Às palavras, e são coladas numa base emborrachada EVA. Optamos por uma borda preta para contrastar com o prateado do alumínio (pensando nas pessoas com baixa visão) e evitar que tenham que ser substituídas porque ficaram encardidas pelo constante contato com as mãos e dedos. As placas emborrachadas usadas também são atoalhadas, ou seja, possuem um felpudo que aderem (grudam) naturalmente nas bordas das plaquinhas, envolvendo-as e  evitando que fiquem cortantes.
 
Assim que foram  coladas na placa felpuda  (geralmente com cola de contato), a base preta é recortada deixando também 0,5 cm como moldura. Os quatro cantos/pontas são retiradas mais para um acabamento. As placas prontas são afixadas de acordo com a NBR 9050, distantes cerca de 0,90 m a 1,10 m do chão e sempre na parede próxima a abertura de portas, início e final de corrimãos ou na parte frontal dos guichês e balcões de atendimento. Também podem ser afixadas em prateleiras de bibliotecas, próximo a obras em museus e para nomear objetos em um ambiente. é importante que a legenda das placas de sinalização em Braille acompanhe a mesma sinalização em tinta quanto ao que está escrito em letras comuns.
 
Muito mais do que promover acessibilidade, as placas de sinalização Braille trazem consigo a ideia do reaproveitamento de materiais, dão visibilidade a um grupo que timidamente tem ganhado espaço em participação social, econômica e laboral, além de permitirem que pessoas que enxergam convivam com a escrita Braille minimizando o impacto e o estranhamento delas a uma condição particular das pessoas cegas. Quando o Braille passa a fazer parte da realidade das pessoas, independente de serem cegas ou não, essa forma de leitura e escrita se torna um forte elemento de inclusão e de protagonismo. Esse caminho desperta o entendimento de que o Braille deixou de ser exclusivo para ganhar uma dimensão universal, cabendo dentro das diferentes realidades. A legenda em Braille, através das placas, também contribuem para a alfabetização e a reabilitação de crianças, jovens ou adultos cegos, aqueles que muito resistem ao uso desse sistema porque raramente encontram uma função prática para a sua utilização. Assim o Braille, num conceito sustentável, incorpora valores e práticas hoje pouco difundidas, mas que são essenciais para a cidadania. Foi assim que eu encontrei uma solução de baixo custo e eficiente para tornar nosso entorno mais acessível. Além disso ficam lindas e são muito charmosas!
 
Espero que gostem e que pratiquem a acessibilidade sustentável também!
 
* Luciane Molina é pedagoga e pessoa com deficiência visual. Atua com formação de professores e projetos de acessibilidade no Vale do Paraíba e Litoral Norte de SP. É colunista do Guia Inclusivo desde 2011.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

domingo, 2 de novembro de 2014

Educação Inclusiva é transversal

Uma pergunta que não quer calar: "Enfim, a educação inclusiva cabe dentro do conceito de transversalidade do ensino?!
 
Estudando sobre interdisciplinaridade e transversalidade do ensino, conceitos estes abordados em uma das disciplinas da pós-graduação que estou cursando pela UNIFEI, em tecnologias, Formação de Professores e sociedade, fiquei me questionando sobre o caráter transversal da educação inclusiva e o que tem sido praticado, na maioria dos casos, hoje em dia nas escolas regulares e no sistema de atendimento educacional especializado.
 
A educação inclusiva deve ser efetivada com a prática do respeito à diversidade e da  tolerância, o reconhecimento de valores e o domínio de habilidades necessárias ao convívio e interação social. a educação inclusiva ultrapassa o mero caráter técnico e disciplinar, porque seu sentido supõe que corte transversalmente uma única disciplina, estando dentro de cada uma delas.
 
Embora transversal, ou seja, ultrapassando os limites de cada disciplina, a educação inclusiva não precisa cobrar que todos os professores sejam generalistas, mas que o conhecimento acumulado pelo especialista em cada deficiência possa refletir nessas diversas disciplinas, sem deixar nas mãos desse professor especialista a única tarefa de educar os alunos com deficiência.
 
Isso significa que o conceito da educação inclusiva não pode continuar sendo de domínio exclusivo de uma única disciplina ou responsabilidade de um único técnico. Para que seja, de fato inclusiva, necessita haver uma ruptura do conceito de "complementar" ao ensino regular. O que vemos hoje dentro das escolas, são metodologias focadas em complementar aquilo que o aluno com deficiência não consegue atingir dentro do ensino regular e que, por isso, frequentam salas de recursos no contra-turno. enquanto a ideia tiver como foco central estratégias complementares, estaremos assumindo que a educação regular não dá conta da diversidade, porque aquilo que precisa ser complementado supõe que não está suficientemente bom, nem atendendo ao que se propõe.
 
O caráter transversal da educação inclusiva está justamente no fato do aluno não sentir-se isolado dentro do seu espaço, que ele seja aluno sem adjetivos ou rótulos e que mostre-se capaz de enfrentar os desafios escolares. A transversalidade da educação inclusiva coloca o aluno e o professor  como protagonistas de uma história de sucesso e não apenas o professor especialista como o único responsável pelo desenvolvimento do aluno com deficiência. Muitas vezes o complementar rotula muito mais do que promove autonomia, julga mais a ineficiência do que permite enxergar os alcances e isola mais do que inclui.
 
A transversalidade da educação inclusiva não cria dependência de um serviço que sempre vai complementar a ineficiência do outro, não cria obrigatoriedade com base na deficiência e não segrega em função de uma "incapacidade" aparente, embora não seja função da sala de recursos compensar aquilo que não é possível desenvolver junto com os demais. Ora, não cabe à educação inclusiva nivelar o desenvolvimento de um aluno, moldá-lo mediante uma prontidão análoga ao princípio de que se um aluno tem uma deficiência ele precisa atingir um desenvolvimento equivalente ou igual ao de qualquer aluno, ignorando a diversidade e, por isso, sempre vai existir algo a ser complementado aos olhos de quem não enxerga a tênue linha que ultrapassa toda e qualquer disciplina transversalmente.
 
É isso!
 
 
 
 
 
 
 
 
 

domingo, 26 de outubro de 2014

Experiência ao votar no segundo turno

Acabo de chegar; fui exercer minha cidadania. E antes que alguém diga que já avançamos efetivamente quanto ao direito de votar pelas pessoas cegas, digo que a história só pode ser construída em movimento. se ficarmos estagnados diante de uma mudança mais ou menos, jamais vamos mostrar que a diversidade é um dos pilares da democracia.
 
Antes de sair de casa, passei a mão no fone de ouvido que estava usando no meu computador naquele momento. Coloquei-o na bolsa, embora eu já estivesse decidida não utilizá-lo durante a votação. Para quem desconhece, as urnas eletrônicas -- todas elas -- possuem um recurso de acessibilidade para que cegos ouçam o número que digitou e não corra o risco de invalidar seu voto por qualquer falha ao pressionar as teclas. Quero também deixar claro que, embora eu perceba esse recurso insuficiente, porque apenas repete  em voz o número digitado, sem falar o nome do candidato conforme legenda que aparece no display, sirva  de apoio para que nosso voto não seja totalmente no escuro.
 
Comecei a votar já na era das urnas eletrônicas e nunca utilizei o recurso de acessibilidade por áudio. Não porque não quisesse, mas porque nunca fora ativado em minha sessão, embora eu sempre fizesse questão de solicitar ao mesário. Antes, porém, nós escutávamos um "bip" -- som característico -- cada vez que pressionávamos uma tecla e aí tínhamos a certeza de que o número havia sido registrado. Em certa eleição, uma das teclas da urna em que votei estava agarrada. Tive que apertar com força o botão até que ele emitiu o "bip" e respirei aliviada. Se não fosse o barulhinho emitido, até hoje eu não saberia se realmente havia ajudado eleger meu candidato. Hoje esse som característico não mais existe nas urnas.
 
Falaremos do teclado em Braille mais adiante.
 
Dessa vez não foi muito diferente quanto à acessibilidade. Cheguei até a sala de votação e logo fui reconhecida por um  mesário, que notou minha ausência no primeiro turno. Eu havia justificado por estar em serviço numa outra cidade. Ora, se ele havia se lembrado de mim, certamente deva saber que eu sou cega e que tantas outras vezes já havia questionado com ele sobre o recurso de áudio disponível para nós. Ainda não estava disposta a sacar meu fone da bolsa e pedir que plugasse no equipamento, até porque não julgava tão necessário assim.
 
Perguntei para esse mesário, por curiosidade, se caso eu desejasse eu poderia votar com áudio?  E lá veio a resposta dele, sem titubear. "Para a próxima eleição você pode solicitar a sua transferência para uma sessão especial e lá poderá ter o recurso que deseja".
 
Ouvir a palavra "especial" me dá um arrepio tão grande, tão grande, que me senti com cara de pastel.  Automaticamente, abri minha bolsa e tirei de lá meu fone de ouvido, explicando, ao mesmo tempo, que:
 
1. Todas as urnas possuem o recurso de acessibilidade por áudio;
2. Que eu posso votar nessa mesma sessão, pois não preciso de um lugar especial, exclusivo, longe do convívio comum;
3. que eu queria sim testar a acessibilidade da urna, até para poder opinar sobre a sua eficiência ou não.
 
Agora foi ele quem ficou com a cara de pastel, mas insistiu na premissa que eu poderia votar utilizando-me do Braille que acompanha a marcação das teclas da urna eletrônica.
 
Ser uma defensora ferrenha do Braille para o processo de alfabetização da pessoa cega, não me coloca no direito de elevá-lo ao patamar máximo da acessibilidade. Muito embora saibamos que as marcações em Braille nas teclas ajudam muitos cegos a orientarem-se no momento da votação, não serve para todos, além de ser dispensável para alguns. As teclas da urna são dispostas conforme as de um teclado de telefone e até aí não fica dúvida sobre a localização dos números. Também é comum encontrarmos cegos que não sabem ou não dominam a leitura Braille, por diferentes motivos que não cabem citá-los aqui.
 
Eu não tenho problema algum em votar utilizando-me das marcações em Braille e dispensaria, com segurança, os fones de ouvido, não fosse a falta de informação dos mesários. Também dispensaria o Braille, mas seria contraditório tentar medir todos com a mesma régua. Os diferentes recursos existem justamente para contemplar necessidades diversas e  numa frustrada tentativa de apregoar o conceito do desenho universal, esquece-se de que a incorporação desse conceito na vida prática das pessoas passsa, sobretudo, pela informação. Não basta que o recurso esteja ali, se não há quem possa ativá-lo.
 
Assinei a lista de presença e dirigi-me à cabine de votação. Então, onde plugar meus fones?
 
"Tateei" a urna inteirinha até que achei o bendito "buraco", também desconhecido pelo mesário. Mostrei a ele e dei meu fone para ele plugar. apertei os dois botões para os dígitos do meu candidato e não ouvi nenhum "bip". Realmente o som das teclas havia sido eliminado das urnas, uma característica talvez muito mais válida do que o áudio que sai nos fones. Meu fone também continuou mudo; som algum foi emitido, nem pelas teclas, nem pelos fones. Antes de confirmar, solicitei para que meu "olho amigo", também conhecido como MÃE, verificasse se estava tudo certo e, mediante sua audiodescrição da tela apertei, com orgulho o botão "confirma".
 
Sensação muito boa de contribuir para a democracia. Tristeza por constatar a falta de informação dos mesários da minha sessão com relação a acessibilidade para pessoas cegas.
 
Já na sessão ao lado, enquanto minha mãe votava, perguntei aos mesários sobre a acessibilidade. diferentemente da minha, lá até a fiscal sabia como proceder. Falei sobre o código que deveriam digitar antes do número do título de eleitor e eles confirmaram com satisfação que o cego que votar naquela sessão terá seu direito respeitado e poderá fazer uso do Braille e também do áudio nos fones de ouvido, se preferir. Pareciam estar muito bem familiarizado com o assunto.
 
Aí tive a certeza que ainda falta informação para que a inclusão aconteça de verdade.
 
 
Confira também como foi minha experiência no primeiro turno:
 
Alguém já parou pra pensar que o eleitor cego ou com baixa visão que precise justificar o voto não tem disponível um formulário acessível e "obrigatoriamente" terá que exercer sua cidadania mediante os olhos e as mãos  de alguém?
 
Foi somente a partir de 2012 que uma resolução do TSE permitiu que pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida PUDESSEM levar consigo um acompanhante, mas não os obriga a ter que votar somente na presença desse acompanhante.
 
Aí fui pegar meu formulário de justificativa, que pra mim não passou de um pedaço de papel liso, e comentei que pessoas cegas não estavam tendo acessibilidade. A menina então disse: "Só para votar que você tem". Mas política não passa de jogo de interesses... se eu dou meu voto eu recebo acessibilidade, se eu preciso justificar, que se dane o eleitor cego!
 
Então é contraditório ter acessibilidade apenas na hora da votação e não ter acessibilidade no momento da justificativa. Ou será que o exercício da cidadania é direito apenas do eleitor que vai dar seu voto para um candidato ou partido? A acessibilidade é partidária ou direito previsto na Constituição e reforçado pela Convenção da oNU e pelas dezenas de outros decretos e leis pela inclusão e acessibilidade  produzidas por esse mesmo país que exclui seus eleitores?
 
Pensei também naquele eleitor surdo que não tem a língua portuguesa como sua primeira língua, no idoso, no analfabeto... Tudo bem que nós temos um dos sistemas mais avançados de votação do mundo, mas mesmo assim muita gente fica de fora, muitos dos direitos produzidos pela democracia não são de fato cumpridos, então porque produzí-los? Quantidade está longe de representar qualidade!
 
32. Como proceder com o eleitor deficiente visual?
 
O eleitor com deficiência visual poderá utilizar para o exercício do voto:
— sistema de áudio, disponível em todas as urnas, com fones de ouvidos instalados nas seções especiais ou, se inscrito em uma seção comum, com seu próprio fone;
— marca de identificação numérica em braille com indicação da tecla número 5 da urna;
 
— alfabeto comum ou alfabeto do sistema braille, para assinalar o caderno de votação ou as cédulas, se for o caso;
— qualquer instrumento mecânico que portar ou lhe for fornecido pela mesa receptora de votos.
Além disso, os eleitores com deficiência visual podem contar com auxílio de pessoa de sua confiança (veja a resposta à questão 9).
 
9. Durante a votação, eleitores idosos, analfabetos ou pessoas com deficiência podem levar acompanhantes que os ajudem a votar?
 
Conforme a Resolução-TSE nº 23.372/2012, art. 56, §§ 1º e 2º, apenas os eleitores com deficiência ou mobilidade reduzida podem contar com auxílio de pessoa de sua confiança, ainda que não tenha requerido antecipadamente ao juiz eleitoral.
 
PS: Não que eu seja encrenqueira, mas a pessoa com deficiência precisa assumir seu papel de protagonismo, de cidadão, porque a sociedade não quer se ver refletida nesse espelho da desigualdade.