terça-feira, 4 de novembro de 2014

As Placas de sinalização Braille e o Conceito de sustentabilidade

    As Placas de Sinalização Braille e o conceito de sustentabilidade
 
Luciane Molina *
 
A confecção de placas de sinalização Braille usando latinhas de cerveja ou refrigerante surgiu da ideia que tive para aplicar em um projeto que desenvolvo na cidade de Caraguatatuba, através da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e do Idoso.
 
Precisava de um material que fosse durável e, ao mesmo tempo flexível. Também tive que pensar em algo que trouxesse uma sensação agradável ao tato e que permitisse uma saliência suficiente para garantir a leitura precisa entre os cegos.
 
Nós, que trabalhamos com o Braille, quase sempre precisamos criar e adaptar algo, ou seja, empreender, buscando soluções viáveis para atender Às necessidades de um determinado público ou grupo social. Meu olhar para acessibilidade sempre me permitiu questionar a falta dela, mas principalmente encontrar meios para sua efetivação.
 
A sustentabilidade também cabe dentro de um projeto acessível e foi aliando os dois conceitos que experimentei inovar, usando latinhas de alumínio para a produção da sinalização dos ambientes e dos espaços de uso coletivo. Fiz os primeiros testes, descartei alguns modelos e aprimorei outros. foi preciso descobrir como deixar a latinha mais plana possível e encontrar a pressão ideal para obter uma saliência cujos pontos em relevo ficassem bem marcados, porém sem serem furados. Também foi necessário encontrar uma maneira para que as laterais da latinha não ficassem cortantes, fixando-as em uma base para que posteriormente as placas fossem colocadas nas paredes, portas, guichês, balcões, objetos, entre outros.
 
Outro detalhe foi pensar em materiais que pudessem ser utilizados tanto em ambientes internos quanto nas partes externas, padronizando-as conforme um modelo base. E então cheguei num resultado ideal!
 
Primeiro as latinhas coletadas são lavadas e abertas com auxílio de uma tesoura de ponta. Em seguida, são colocadas sobre um pano/feltro, com a parte metálica voltada para baixo e enroladas como um rocambole, no sentido contrário. Esse movimento fará com que elas fiquem mais planas. Também  podemos passá-las com ferro quente numa superfície de madeira, lembrando sempre de colocar um pano em cima.
 
Para escrever as palavras em Braille, uso um instrumento de escrita Braille manual, denominado de reglete. É indispensável que o modelo da  reglete seja de alumínio. Para marcar o relevo uso um punção com a ponta arredondada e menos pontiaguda. A saliência ideal é conseguida com uma média pressão sobre a lata, para que os pontos não ultrapassem e rasguem a folha metálica. A pressão tem que ser constante e com alguns movimentos circulares em torno do mesmo eixo, mantendo o punção encostado na base até sentir que o ponto ficou rebaixado. Não consegui resultado satisfatório com a máquina Perkins, de datilografia Braille, por forçar muito as suas paletas de pressão e quando consegui marcar os pontos, estes ficaram perfurados. quando acontece isso, a leitura se torna desagradável, o relevo fica áspero, segurando o dedo ao deslizar sobre as letras.
 
Depois da escrita pronta, as plaquinhas são recortadas deixando 0,cm de distância nas quatro faces, com relação Às palavras, e são coladas numa base emborrachada EVA. Optamos por uma borda preta para contrastar com o prateado do alumínio (pensando nas pessoas com baixa visão) e evitar que tenham que ser substituídas porque ficaram encardidas pelo constante contato com as mãos e dedos. As placas emborrachadas usadas também são atoalhadas, ou seja, possuem um felpudo que aderem (grudam) naturalmente nas bordas das plaquinhas, envolvendo-as e  evitando que fiquem cortantes.
 
Assim que foram  coladas na placa felpuda  (geralmente com cola de contato), a base preta é recortada deixando também 0,5 cm como moldura. Os quatro cantos/pontas são retiradas mais para um acabamento. As placas prontas são afixadas de acordo com a NBR 9050, distantes cerca de 0,90 m a 1,10 m do chão e sempre na parede próxima a abertura de portas, início e final de corrimãos ou na parte frontal dos guichês e balcões de atendimento. Também podem ser afixadas em prateleiras de bibliotecas, próximo a obras em museus e para nomear objetos em um ambiente. é importante que a legenda das placas de sinalização em Braille acompanhe a mesma sinalização em tinta quanto ao que está escrito em letras comuns.
 
Muito mais do que promover acessibilidade, as placas de sinalização Braille trazem consigo a ideia do reaproveitamento de materiais, dão visibilidade a um grupo que timidamente tem ganhado espaço em participação social, econômica e laboral, além de permitirem que pessoas que enxergam convivam com a escrita Braille minimizando o impacto e o estranhamento delas a uma condição particular das pessoas cegas. Quando o Braille passa a fazer parte da realidade das pessoas, independente de serem cegas ou não, essa forma de leitura e escrita se torna um forte elemento de inclusão e de protagonismo. Esse caminho desperta o entendimento de que o Braille deixou de ser exclusivo para ganhar uma dimensão universal, cabendo dentro das diferentes realidades. A legenda em Braille, através das placas, também contribuem para a alfabetização e a reabilitação de crianças, jovens ou adultos cegos, aqueles que muito resistem ao uso desse sistema porque raramente encontram uma função prática para a sua utilização. Assim o Braille, num conceito sustentável, incorpora valores e práticas hoje pouco difundidas, mas que são essenciais para a cidadania. Foi assim que eu encontrei uma solução de baixo custo e eficiente para tornar nosso entorno mais acessível. Além disso ficam lindas e são muito charmosas!
 
Espero que gostem e que pratiquem a acessibilidade sustentável também!
 
* Luciane Molina é pedagoga e pessoa com deficiência visual. Atua com formação de professores e projetos de acessibilidade no Vale do Paraíba e Litoral Norte de SP. É colunista do Guia Inclusivo desde 2011.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Um comentário:

  1. Luciane, boa tarde. Sou consultor de marketing e Gestão dos hotéis fazenda Campo dos Sonhos e Parque dos Sonhos em Socorro-SP. Nossos hotéis são certificado em acessibilidade pela ABNT. Parabéns pela matéria. Achei genial unir a sustentabilidade social a sustentabilidade ambiental. Poderíamos, se viável for, implantar essa ideia no hotel. Você tem o contato de quem produz essas plaquetas?

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