domingo, 26 de outubro de 2014

Experiência ao votar no segundo turno

Acabo de chegar; fui exercer minha cidadania. E antes que alguém diga que já avançamos efetivamente quanto ao direito de votar pelas pessoas cegas, digo que a história só pode ser construída em movimento. se ficarmos estagnados diante de uma mudança mais ou menos, jamais vamos mostrar que a diversidade é um dos pilares da democracia.
 
Antes de sair de casa, passei a mão no fone de ouvido que estava usando no meu computador naquele momento. Coloquei-o na bolsa, embora eu já estivesse decidida não utilizá-lo durante a votação. Para quem desconhece, as urnas eletrônicas -- todas elas -- possuem um recurso de acessibilidade para que cegos ouçam o número que digitou e não corra o risco de invalidar seu voto por qualquer falha ao pressionar as teclas. Quero também deixar claro que, embora eu perceba esse recurso insuficiente, porque apenas repete  em voz o número digitado, sem falar o nome do candidato conforme legenda que aparece no display, sirva  de apoio para que nosso voto não seja totalmente no escuro.
 
Comecei a votar já na era das urnas eletrônicas e nunca utilizei o recurso de acessibilidade por áudio. Não porque não quisesse, mas porque nunca fora ativado em minha sessão, embora eu sempre fizesse questão de solicitar ao mesário. Antes, porém, nós escutávamos um "bip" -- som característico -- cada vez que pressionávamos uma tecla e aí tínhamos a certeza de que o número havia sido registrado. Em certa eleição, uma das teclas da urna em que votei estava agarrada. Tive que apertar com força o botão até que ele emitiu o "bip" e respirei aliviada. Se não fosse o barulhinho emitido, até hoje eu não saberia se realmente havia ajudado eleger meu candidato. Hoje esse som característico não mais existe nas urnas.
 
Falaremos do teclado em Braille mais adiante.
 
Dessa vez não foi muito diferente quanto à acessibilidade. Cheguei até a sala de votação e logo fui reconhecida por um  mesário, que notou minha ausência no primeiro turno. Eu havia justificado por estar em serviço numa outra cidade. Ora, se ele havia se lembrado de mim, certamente deva saber que eu sou cega e que tantas outras vezes já havia questionado com ele sobre o recurso de áudio disponível para nós. Ainda não estava disposta a sacar meu fone da bolsa e pedir que plugasse no equipamento, até porque não julgava tão necessário assim.
 
Perguntei para esse mesário, por curiosidade, se caso eu desejasse eu poderia votar com áudio?  E lá veio a resposta dele, sem titubear. "Para a próxima eleição você pode solicitar a sua transferência para uma sessão especial e lá poderá ter o recurso que deseja".
 
Ouvir a palavra "especial" me dá um arrepio tão grande, tão grande, que me senti com cara de pastel.  Automaticamente, abri minha bolsa e tirei de lá meu fone de ouvido, explicando, ao mesmo tempo, que:
 
1. Todas as urnas possuem o recurso de acessibilidade por áudio;
2. Que eu posso votar nessa mesma sessão, pois não preciso de um lugar especial, exclusivo, longe do convívio comum;
3. que eu queria sim testar a acessibilidade da urna, até para poder opinar sobre a sua eficiência ou não.
 
Agora foi ele quem ficou com a cara de pastel, mas insistiu na premissa que eu poderia votar utilizando-me do Braille que acompanha a marcação das teclas da urna eletrônica.
 
Ser uma defensora ferrenha do Braille para o processo de alfabetização da pessoa cega, não me coloca no direito de elevá-lo ao patamar máximo da acessibilidade. Muito embora saibamos que as marcações em Braille nas teclas ajudam muitos cegos a orientarem-se no momento da votação, não serve para todos, além de ser dispensável para alguns. As teclas da urna são dispostas conforme as de um teclado de telefone e até aí não fica dúvida sobre a localização dos números. Também é comum encontrarmos cegos que não sabem ou não dominam a leitura Braille, por diferentes motivos que não cabem citá-los aqui.
 
Eu não tenho problema algum em votar utilizando-me das marcações em Braille e dispensaria, com segurança, os fones de ouvido, não fosse a falta de informação dos mesários. Também dispensaria o Braille, mas seria contraditório tentar medir todos com a mesma régua. Os diferentes recursos existem justamente para contemplar necessidades diversas e  numa frustrada tentativa de apregoar o conceito do desenho universal, esquece-se de que a incorporação desse conceito na vida prática das pessoas passsa, sobretudo, pela informação. Não basta que o recurso esteja ali, se não há quem possa ativá-lo.
 
Assinei a lista de presença e dirigi-me à cabine de votação. Então, onde plugar meus fones?
 
"Tateei" a urna inteirinha até que achei o bendito "buraco", também desconhecido pelo mesário. Mostrei a ele e dei meu fone para ele plugar. apertei os dois botões para os dígitos do meu candidato e não ouvi nenhum "bip". Realmente o som das teclas havia sido eliminado das urnas, uma característica talvez muito mais válida do que o áudio que sai nos fones. Meu fone também continuou mudo; som algum foi emitido, nem pelas teclas, nem pelos fones. Antes de confirmar, solicitei para que meu "olho amigo", também conhecido como MÃE, verificasse se estava tudo certo e, mediante sua audiodescrição da tela apertei, com orgulho o botão "confirma".
 
Sensação muito boa de contribuir para a democracia. Tristeza por constatar a falta de informação dos mesários da minha sessão com relação a acessibilidade para pessoas cegas.
 
Já na sessão ao lado, enquanto minha mãe votava, perguntei aos mesários sobre a acessibilidade. diferentemente da minha, lá até a fiscal sabia como proceder. Falei sobre o código que deveriam digitar antes do número do título de eleitor e eles confirmaram com satisfação que o cego que votar naquela sessão terá seu direito respeitado e poderá fazer uso do Braille e também do áudio nos fones de ouvido, se preferir. Pareciam estar muito bem familiarizado com o assunto.
 
Aí tive a certeza que ainda falta informação para que a inclusão aconteça de verdade.
 
 
Confira também como foi minha experiência no primeiro turno:
 
Alguém já parou pra pensar que o eleitor cego ou com baixa visão que precise justificar o voto não tem disponível um formulário acessível e "obrigatoriamente" terá que exercer sua cidadania mediante os olhos e as mãos  de alguém?
 
Foi somente a partir de 2012 que uma resolução do TSE permitiu que pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida PUDESSEM levar consigo um acompanhante, mas não os obriga a ter que votar somente na presença desse acompanhante.
 
Aí fui pegar meu formulário de justificativa, que pra mim não passou de um pedaço de papel liso, e comentei que pessoas cegas não estavam tendo acessibilidade. A menina então disse: "Só para votar que você tem". Mas política não passa de jogo de interesses... se eu dou meu voto eu recebo acessibilidade, se eu preciso justificar, que se dane o eleitor cego!
 
Então é contraditório ter acessibilidade apenas na hora da votação e não ter acessibilidade no momento da justificativa. Ou será que o exercício da cidadania é direito apenas do eleitor que vai dar seu voto para um candidato ou partido? A acessibilidade é partidária ou direito previsto na Constituição e reforçado pela Convenção da oNU e pelas dezenas de outros decretos e leis pela inclusão e acessibilidade  produzidas por esse mesmo país que exclui seus eleitores?
 
Pensei também naquele eleitor surdo que não tem a língua portuguesa como sua primeira língua, no idoso, no analfabeto... Tudo bem que nós temos um dos sistemas mais avançados de votação do mundo, mas mesmo assim muita gente fica de fora, muitos dos direitos produzidos pela democracia não são de fato cumpridos, então porque produzí-los? Quantidade está longe de representar qualidade!
 
32. Como proceder com o eleitor deficiente visual?
 
O eleitor com deficiência visual poderá utilizar para o exercício do voto:
— sistema de áudio, disponível em todas as urnas, com fones de ouvidos instalados nas seções especiais ou, se inscrito em uma seção comum, com seu próprio fone;
— marca de identificação numérica em braille com indicação da tecla número 5 da urna;
 
— alfabeto comum ou alfabeto do sistema braille, para assinalar o caderno de votação ou as cédulas, se for o caso;
— qualquer instrumento mecânico que portar ou lhe for fornecido pela mesa receptora de votos.
Além disso, os eleitores com deficiência visual podem contar com auxílio de pessoa de sua confiança (veja a resposta à questão 9).
 
9. Durante a votação, eleitores idosos, analfabetos ou pessoas com deficiência podem levar acompanhantes que os ajudem a votar?
 
Conforme a Resolução-TSE nº 23.372/2012, art. 56, §§ 1º e 2º, apenas os eleitores com deficiência ou mobilidade reduzida podem contar com auxílio de pessoa de sua confiança, ainda que não tenha requerido antecipadamente ao juiz eleitoral.
 
PS: Não que eu seja encrenqueira, mas a pessoa com deficiência precisa assumir seu papel de protagonismo, de cidadão, porque a sociedade não quer se ver refletida nesse espelho da desigualdade.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

sábado, 25 de outubro de 2014

O Meu Muito Obrigada a uma Turma Tão Especial!

SUCESSO é a palavra que melhor define esse sábado. Durante seis meses estivemos juntos para mais uma maratona de estudos. Colocamos o cérebro numa intensiva ginástica a fim de compreender todos aqueles novos conceitos acerca da matemática. Mas não foi uma matemática qualquer!

Logo no primeiro dia de aula fiz questão de reforçar que o aprendizado do soroban envolvia construções conceituais que tem como base o concreto. No soroban eu não escrevo um símbolo para representar uma quantidade; eu escrevo a própria quantidade. Entender esse elemento concreto e desconstruir o signo numérico faz parte da complexidade do processo. Trabalhar o movimento de dedos, as regras dos complementares e as operações foram descobertas mágicas e, ao mesmo tempo, muito divertidas.

Nas aulas, era comum que a concentração desse lugar para o riso; que as dificuldades fossem superadas com uma doze de otimismo; que a cada nova fórmula descoberta fosse comemorada com vontade de ir muito mais além.

Nossos encontros foram leves, apesar da seriedade que o assunto merecesse. Pagamos muitos "micos", incluindo eu, a professora, afinal, que graça teria se tudo fosse tão certinho, dentro de um rigor que de nada representa a personalidade desse grupo. Eu não sou a mesma de quando começamos e tenho certeza que vocês também não são. convivemos, interagimos e aprendemos a ser melhores com as diferenças dos outros, respeitando aquilo que cada um ofereceu. Aprendemos muito mais do que cálculos, aprendemos o significado de amor. fizemos tudo com muito amor!

Vocês levaram os estudos muito à sério, muito mais além do que eu esperei. Estudamos soroban sem dizer "chega" e cumprimos o cronograma antes do final. Afinal, a verdade é que pra gente não existe um final!

Faço questão de dizer o que já disse pessoalmente pra vocês. Receber o diploma não significa que terminamos, mas sim que devemos continuar. Demos um upgrade no Braille e constatamos que é possível criar estratégias para ampliar e fortalecer a educação inclusiva, seja através da escrita e leitura, seja através da matemática.

Somamos esforços; subtraímos dificuldades; multiplicamos conhecimento e dividimos experiências. Dentro do que era possível, ultrapassamos cada limite para provar que vocês fazem a diferença por onde passam.

Das tarefas para serem realizadas em casa, vocês fizeram grandes encontros e grupos de estudo. Essa fórmula deu muito certo porque vocês aproveitaram cada desafio transformando-o
s em possibilidades. Treinaram constantemente e não deixaram lacunas vazias. Espremeram o tempo, sem que a desculpa do cansaço lhes diminuísse a coragem para buscarem o sucesso. E por isso, ganharam até três novos aprendizados que couberam dentro do nosso cronograma cumprido com muito orgulho e dedicação.

Nossos encontros escreveram um capítulo da minha história, embora meu caderno não seja tãããão bem anotado quanto o da Vanessa. Afinal Vanessa, como você anotou tudo, tem como contar pra gente quantas vezes eu respirei aliviada depois de uma conta bem realizada? E a Claudinha, sempre comportada, mas que nem piscava pra não perder nenhum movimento de contas? às vezes se chacoalhava na cadeira de tanto rir dos "micos" alheios. A Elaine, bem digo que será minha sucessora, com muito prazer, porque ela enxerga bem lá longe. A Cida, que mesmo com a intensiva campanha não criou uma conta no facebook, mas estudou direitinho. André, o nosso "Clássico", que apesar do livrinho de tabuada, conseguia virar o soroban ao contrário... deixei a Dora por último, porque eu estava tentando olhar bem dentro dos olhos dela para decifrar as incógnitas que permeavam seu pensamento. As caras e bocas que ela fazia, até eu conseguia enxergar. Ela quase tinha uma parada respiratória, cada vez que arregalava os olhos, torcia levemente o pescoço pro lado e levantava uma das sobrancelhas com a boca quase aberta de surpresa!

A saudade já toma conta dos nossos sábados, embora o boneco do Papai Noel que ganhei de presente  os represente aqui na minha sala vazia. Espero que nossos sábados sejam preenchidos muito em breve com a presença de vocês novamente por aqui. Agradeço, do fundo do coração, por vocês terem a coragem suficiente para mudar o mundo!

Um abraço apertado a cada um e parabéns por mais essa etapa!

Amo vocês!

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Reportagem Jornal O Vale

Professora traduz Ziraldo para Braille.
 
Katia carvalho, 35 anos (a dir na foto).
 
Professora de Caraguá Traduziu um livro de Ziraldo para a Linguagem Braille
 
A obra "Um bebê em forma de gente", de 1996, também teve o texto ampliado para crianças com baixa visão. Katia deu ainda relevo às figuras do livro, usando diversos materiais, para que os leitores pudessem "sentir" as imagens. O trabalho levou mais de um mês e nasceu depois que Katia fez um curso com Luciane Molina (à esq. na foto), de Guará, que não enxerga e dá cursos de braille para professores. "Tenho alunos especiais e fiz o livro para que as crianças conhecessem a história", disse Katia. A obra será apresentada na 3ª Feira Literária de Caraguá, de 4 a 7 de novembro, que homenageará ziraldo.
 
Jornal O Vale de 15 de outubro de 2014. Versão impressa.
 
Este álbum possui 4 fotos e estará disponível no OneDrive até 13/01/2015.
   

terça-feira, 30 de setembro de 2014

III Fórum de Inclusão aconteceu em Pindamonhangaba

III Fórum de Inclusão aconteceu em Pindamonhangaba
Eventos relacionados à temática da educação inclusiva vem ganhando espaço no cenário vale-paraibano. Assim como profissionais interessados em aprimorar o conhecimento de como acolher e interagir com as diferenças, pessoas com deficiência passaram a atuar ativamente e lutar pelo seu protagonismo. Por acreditar no potencial da pessoa com deficiência e para levar este assunto a um número maior de pessoas, o grupo Incluir e aprender foi criado na cidade de Pindamonhangaba no ano de 2011.
A ideia da formação do grupo surgiu durante um evento que participaram e a partir daí a união da fonoaudióloga Luciana Wolff, da psicóloga Beatriz Campos de Sá Rodrigues e da representante da família, Regina Célia se tornou realidade. Acreditam que o maior desafio da inclusão é a falta de informação. "No Brasil existem leis que garantem o direito de acessibilidade, de escola, de trabalho e lazer à todos. Precisamos conhecer e nos conscientizar dos meios para garantir que esses direitos não sejam desconhecidos, esquecidos ou ignorados".
Desde 2012 organizam anualmente, na cidade de Pindamonhangaba, o fórum de educação inclusiva, que neste ano está na sua terceira edição. De acordo com uma das organizadoras, a fonoaudióloga Luciana Wolff, a meta inicial era atingir cerca de 150 participantes, número que foi superado logo no ano seguinte, em 2013.
Neste ano, o III Fórum de Educação, com o tema Acolher e aprender com as Diferenças, foi realizado no dia 27 de setembro e contou com a presença de profissionais que trouxeram palestras técnicas, debates e relatos de experiências. As atividades aconteceram das 8:00H Às 17:00H.
Dentre os temas que foram abordados, Wantuir Francisco Siqueira Jacini falou sobre Exercícios Físicos e Neuroplasticidade: aplicações potenciais para crianças, Luciane Molina com o relato de experiência Vencer é Ultrapassar com o Olhar além Daquilo que se pode Ver, Luciana dos Santos Cordeiro de Mello e Daniel R. B. Nascimento que abordaram a filosofia institucional e plano de trabalho da Fundação Síndrome de Down, Lilia Barreto falando sobre AEE E Tecnologia Assistiva e, por fim, a palestra de Bel Dias com o site de encontros de professores de AEE do Brasil.
O grupo Incluir e Aprender atua na orientação de familiares e escolas, assessorias e consultorias em inclusão social. Além de também ministrar cursos e palestras em clinicas, instituições e escolas públicas e privadas.
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Inserir nome do álbum aqui
Este álbum possui 6 fotos e estará disponível no OneDrive até 29/12/2014.
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Serviço: III Fórum de Inclusão em Pindamonhangaba
Quando: 27 de setembro de 2014 – sábado
Onde: em Pindamonhangaba – SP
* Nas imagens apareço palestrando; mostrando o livro inclusivo adaptado por uma aluna de Caraguatatuba; junto com as idealizadoras do evento.
 

Relato de Experiência no III Fórum de Inclusão em Pindamonhangaba

Vencer é ultrapassar com o olhar além daquilo que se pode ver

Luciane Maria Molina Barbosa

Tocar nas figuras, ouvir as imagens, sentir o aroma e o sabor das cores foi algo extremamente natural pra mim desde muito cedo. Foi através dos "olhos" de alguém que fui construindo meu vasto repertório de imagens e me interessando por tudo aquilo que faz parte do mundo real, sem que me excluíssem das atividades comuns. Sempre freqüentei o ensino regular, mesmo em uma época que falar sobre "inclusão" era utopia. Quebrei todos os protocolos e nunca fui a "aluna especial" aos olhos daqueles professores e colegas de classe. Meus pais sempre foram os heróis de uma história que ainda está em construção, porque continuam a caminhada comigo num ato de doação pela causa da pessoa com deficiência visual. Apesar de ter conseguido ser alfabetizada em tinta, com uso de potentes lupas e letras extremamente ampliadas, num certo momento já não conseguia ler nem escrever. Até aprender o Sistema Braille, com 12 anos de idade, apenas lia e escrevia mais pelos "olhos" e "vozes" que eram emprestadas gentilmente, ora dos meus pais, ora dos colegas de classe e professores. A visão cada vez menor não reduziu minhas perspectivas de acesso ao conhecimento. Alimentar-me com informação tornou-se algo vital. Aprendi o sistema Braille em quatro meses e o mundo transformara em letras, palavras, sentenças, histórias infinitas, lidas por meio do meu próprio esforço. Escolhi como carreira o magistério e formei-me pedagoga. A ausência de profissionais habilitados para o ensino do Braille em minha região despertou o meu interesse em contribuir para que as pessoas cegas deixassem o conformismo e se libertassem da prisão intelectual a qual estavam submetidas. Através da educação eu poderia comunicar e informar, ensinar e transformar realidades por onde pisasse. Nunca consegui enxergar os limites apesar da cegueira; ultrapassar barreiras significa enxergar potencialidades onde a sociedade rotula incapacidades. Minha trajetória profissional teve início com a alfabetização e reabilitação de pessoas cegas. Mais tarde, porém, percebi que a inclusão não é um processo isolado, dentro de um espaço exclusivo e sem desafios. Passei a formar professores e outros profissionais para atenderem pessoas cegas ou com baixa visão no ensino regular. Tornei-me palestrante, consultora e uma estudiosa incansável. Em quase quatorze anos de atuação na educação especial e inclusiva, sinto-me grata por cada desafio encontrado, por cada "olhar" positivo de surpresa ou de reprovação recebido, porque a beleza da vida é compartilhar conhecimento, realizar sonhos e ultrapassar as barreiras visíveis, e até mesmo as invisíveis, embora tenhamos a certeza de que perceber o mundo através dos sentidos seja algo mágico e, ao mesmo tempo, um ato de coragem que aprendemos diariamente. A inclusão é construída na coletividade, por isso, permita-se adentrar nesse espaço tão desafiador; permita-se atravessar essa estrada, porque juntos podemos enxergar ainda mais longe!

* Pedagoga e pessoa com deficiência visual. Especialista em atendimento Educacional especializado (UNESP). Pós-graduanda pela UNIFEI em Tecnologias, Formação de Professores e Sociedade.

Atua há mais de 13 anos com educação especial e inclusiva, com trabalhos voltados à alfabetização Braille, tecnologia assistiva, audiodescrição e formação de professores. Vencedora do IV Prêmio Sentidos (2011)do IV Prêmio Ações Inclusivas (2013), palestrante e colunista. Mantém o blog www.braillu.com

Releitura do texto de Lac Lobato

Eu amo o Sistema Braille e 1/3 do meu tempo, divulgo a existência dele, falo da parte técnica e da parte poética. Falo da alegria de voltar a ler e escrever  depois de mais de uma década de prisão intelectual, recebendo informações vindas das vozes e olhos de alguém. Descrevo com o mesmo entusiasmo ler palavras soltas ou compreender a narrativa de uma história. A alfabetização em Braille é o alicerce mais forte da personalidade que eu me tornei. Se eu puder tirar todas as dúvidas e afastar os medos de quem me procura, eu faço isso para que as pessoas não percam nem mais um segundo sem tocar as palavras por receios ou por outras influências.
E é algo que faço de coração aberto, só porque a felicidade de reencontrar as informações não é algo que cabe no meu coração, é um sentimento tão grande, que preciso dividir.
Mas, admito que fico surpresa quando alguém diz "não entendo porque alguém pode ser contra o aprendizado do Sistema Braille".
Acho que a resposta é mais simples do que parece: pode, porque sim.
Para um cego  de nascença já com identidade formada, a cegueira não é uma deficiência, ela é um traço de personalidade. Enxergar  não está ligado ao prazer, não está ligado a informação (porque os outros sentidos no caso deles, dão conta), não está ligado a conexão com o mundo (porque o fazem através do tato, do olfato, do paladar e da audição). E, sobretudo, mexer com a realidade que a pessoa conhece, que sempre viveu, é desconfortável. Nem todo mundo gosta de sair da sua zona de conforto.
É claro que compreender o que eles sentem, nem sempre significa concordar. Para um vidente, a imagem tem um significado inestimável. Por isso que a maioria das pessoas fica triste ao perder a visão. Para um "enxergante", a visão  é a base do sentimento de comunidade, porque a comunicação se faz através dela.
Não escrevo isso para mudar a visão de ninguém, apenas um apelo ao respeito. Quem gosta de ler com os dedos, deve procurar entender e respeitar quem tem outras formas de acesso ao conhecimento como referência de identidade. Para quem não acha importante sentir o significado tátil das letras, que haja respeito por quem opta pela escrita pontográfica para si mesmo ou para o outro.
Compreender não significa concordar, apenas demonstrar respeito ao direito inalienável de escolha.
Pessoalmente, eu escolhi o Sistema Braille e é sobre ele que eu divulgo.
 
 
Luciane molina, releitura do texto abaixo da autora Lac Lobato
 
 
Eu amo o implante coclear e 1/3 do meu tempo, divulgo a existência dele, falo da parte técnica e da parte poética. Falo da alegria de voltar a ouvir depois de duas décadas e meia de silêncio. Descrevo com o mesmo entusiasmo ouvir folhas secas sendo esmagadas pelos nossos passos ou escutar Cavalgada das Valquírias de Wagner. O implante coclear é o alicerce mais forte da personalidade que eu me tornei. Se eu puder tirar todas as dúvidas e afastar os medos de quem me procura, eu faço isso para que as pessoas não percam nem mais um segundo em silêncio por receios.
E é algo que faço de coração aberto, só porque a felicidade de reencontrar os sons não é algo que cabe no meu coração, é um sentimento tão grande, que preciso dividir.
Mas, admito que fico surpresa quando alguém diz "não entendo porque alguém pode ser contra o implante coclear.".
Acho que a resposta é mais simples do que parece: pode, porque sim.
Para um surdo de nascença já com identidade formada, a surdez não é uma deficiência, ela é um traço de personalidade. Ouvir não está ligado ao prazer, não está ligado a informação (porque a visão, no caso deles, dá conta), não está ligado a conexão com o mundo (porque o fazem através da visão). E, sobretudo, mexer com a realidade que a pessoa conhece, que sempre viveu, é desconfortável. Nem todo mundo gosta de sair da sua zona de conforto.
É claro que compreender o que eles sentem, nem sempre significa concordar. Para um ouvinte, o som tem um significado inestimável. Por isso que a maioria das pessoas fica triste ao perder a audição. Para um ouvinte, a audição é a base do sentimento de comunidade, porque a comunicação se faz através dela.
Não escrevo isso para mudar a visão de ninguém, apenas um apelo ao respeito. Quem gosta de ouvir, deve procurar entender e respeitar quem tem a surdez como referência de identidade. Para quem não acha importante ouvir, que haja respeito por quem opta pelo implante coclear para si mesmo ou para o filho.
Compreender não significa concordar, apenas demonstrar respeito ao direito inalienável de escolha.
Pessoalmente, eu escolhi o implante coclear e é sobre ele que eu divulgo.
 
 

Instituto Federal recebe orientações da SEPEDI para Incluir alunos com cegueira e surdez nos cursos do PRONATEC

Instituto Federal recebe orientações da SEPEDI para Incluir alunos com cegueira e surdez nos cursos do PRONATEC
Na última quinta-feira (18), duas profissionais da equipe técnica da Secretaria municipal da Pessoa com Deficiência e do Idoso (SEPEDI) estiveram em reunião no Instituto Federal com os professores do PRONATEC a fim de levar orientações acerca da inclusão de alunos com cegueira e surdez nos cursos ofertados no campus de Caraguatatuba.
Esta parceria com a SEPEDI foi solicitada pela assistente de alunos do IF, Maíra Ferreira Martins, diante da necessidade em levar conhecimento para os professores sobre estratégias inclusivas e tecnologias que pudessem ser aplicadas para auxiliar um aluno cego matriculado no curso aconselhador em Dependência Química e o aluno com surdez que frequenta o curso Operador de Computador, ambos ofertados pelo PRONATEC. O Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (PRONATEC) foi criado pelo Governo Federal, em 2011, com o objetivo de ampliar a oferta de cursos de educação profissional e tecnológica.
A pedagoga especialista em deficiência auditiva/LIBRAS Marcela Sugahara e a consultora em deficiência visual Luciane Molina, ambas representantes da SEPEDI, se reuniram com a assistente Mayra Martins, com o coordenador pedagógico do PRONATEC do IF, Márcio Vieira, e mais quatro professores numa reunião bastante produtiva que durou cerca de duas horas. Durante este encontro trataram sobre temas pontuais referentes a inclusão de alunos com deficiência e a postura protagonista das instituições diante da demanda de estudantes cegos e surdos em cursos do PRONATEC. Foram oferecidas orientações quanto ao envolvimento dos professores com atividades que possam contemplar esse público, a escuta desses professores com relação a experiência que estão vivendo, demonstração de tecnologias assistivas e do uso da informática como um recurso a mais para que alunos cegos possam ler os materiais, realizarem avaliações e participarem em igualdade com os demais cursistas. Além disso, a especialista em deficiência visual, Luciane Molina, que também é cega, fez um relato de suas experiências enquanto aluna e, posteriormente profissional que atua na área da educação inclusiva.
A fala dos professores e da coordenação só reforçou que a presença de alunos com deficiência traz um ganho para toda a comunidade envolvida. Os relatos também mostraram o envolvimento espontâneo dos colegas de curso e a mobilização para conviver com os alunos com deficiência, incluindo-os nas atividades acadêmicas e no convívio social. Entretanto conhecer de perto alguns recursos da tecnologia assistiva trouxe uma nova perspectiva para esses professores, ampliando mais as possibilidades de aplicar esse conhecimento em suas aulas. O Instituto Federal se mostrou aberto e receptivo às informações. Se dispuseram a oferecer tais recursos para os alunos cegos e a SEPEDI se colocou a disposição para auxiliá-los e orientá-los sempre que necessário, inclusive para a instalação do software no computador para o uso pelo aluno do curso de Aconselhador em Dependência Química.
A Secretaria da Pessoa com Deficiência e do Idoso (SEPEDI, através da secretária Municipal Ivy Monteiro Malerba, tem como objetivo articular ações que visam promover, proteger e assegurar os direitos das pessoas com deficiência e do idoso de Caraguatatuba. Para maiores informações o telefone da SEPEDI é o 08007747055. Horário de funcionamento das 8:00H Às 17:00H.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Palestra na FAPI em 29 de setembro

Setembro de muito trabalho. Hoje na FAPI - Faculdade de Pindamonhangaba palestrando para mais de 100 alunos. Agradeço pela oportunidade de levar o conhecimento para muitas pessoas.
 
Quando recebi o convite para falar e levar a minha história para os alunos do curso de administração da FAPI, desafiei os meus próprios conceitos sobre educação e pedagogia, já que a proposta era falar sobre "empreendedorismo". Pensei em que eu contribuiria para a formação desses alunos falando sobre inclusão escolar e social da pessoa com deficiência visual? Descobri, então, que trabalhar com Inclusão tem tudo a ver com "empreendedorismo". Trabalhar pela inclusão é ousar, é criar e redescobrir diferentes formas para transformar as dificuldades em oportunidades. O processo de inclusão traz consigo a ideia de movimento, sair da condição de expectador para se transformar em protagonista desse processo. Tanto empreender quanto incluir requerem tomadas de decisão e a ruptura de paradigmas. Pessoas com deficiência tem saído de suas casas para frequentarem escolas, competirem no mercado de trabalho, consumirem serviços e produtos e, embora esse protagonismo seja recente, a quebra das barreiras atitudinais, comunicacionais e arquitetônicas precisa ser uma realidade. Criar soluções que levem pessoas com alguma deficiência a participarem desse mundo competitivo e, pra elas, esse mesmo mundo se torna duplamente mais competitivo, porque além de provarem que conseguem desempenhar uma tarefa com excelência, elas precisam comprovar que seus alcances são maiores do que os limites. Esses limites que não são trazidos pela deficiência, mas pela falta de um livro em Braille ou no formato digital, pela ausência da audiodescrição, pela não existência de um cardápio acessível ou de um piso tátil, entre outros...
 
Assim discorri sobre inclusão e empreendedorismo, contei um pouco da minha história e de como as soluções criativas se fizeram presentes e necessárias durante toda minha trajetória. Falei também sobre as formações que ministro para que o conhecimento atinja o maior número de pessoas. Em seguida contei sobre o Projeto Selo Empresa Inclusiva de Caraguatatuba e mostrei fotos que retratam as diferentes formas que encontrei para enxergar o mundo a minha volta. Trouxe o conceito sobre Braille e leitura inclusiva, demonstrei algum uso da tecnologia assistiva e como relacionar-se com pessoas cegas para ajudá-las na locomoção. foi uma noite muito agradável e bastante produtiva, porque trouxe comigo o carinho daqueles alunos e professores que, por quase duas horas, estiveram atentos e participativos.
 
Obrigada FAPI. Obrigada Professor andré Aquino.
 
 

domingo, 21 de setembro de 2014

Dia de Luta da PCD

Hoje é o Dia de Luta da Pessoa com Deficiência. Comemorado em 21 de setembro, a data foi escolhida pela proximidade com a primavera e por ser o dia nacional da árvore. Esse é um momento de renovar sentidos e plantar ações que contribuam para a efetivação dos direitos das pessoas com deficiência pela inclusão e pela acessibilidade. Vamos semear "INCLUSÃO" nos nossos dias?!
 
21 de setembro, Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. #vídeo http://t.co/ck5NDFYgzC
Para as pessoas com deficiência visual, acessem o Vídeo com audiodescrição

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Setembro, a renovação dos sentidos

Meu mundo sempre foi repleto de muitos sons, aromas, sabores e texturas. Experimentei desde muito cedo formas alternativas para conseguir enxergar o que a visão não alcançava e nem por isso me vi incapaz de conhecer e conviver com as diversas possibilidades que me eram oferecidas. construí meu repertório de imagens táteis, figuras perfumadas, fotografias coloridas, movimentos audiodescritos e lembranças saborosas dos momentos vividos. Alguns desses momentos ficarão registrados eternamente porque desafiaram-me a novas sensações. O recomeço sempre tem o sentido de movimento, embora muitas pessoas encarem as mudanças como etapas novas em suas vidas. Pelo contrário, cada novo desafio é continuidade daquilo que deveria ser e que se encaixa perfeitamente no curso da nossa história. Não caminhamos desgovernados, sem um roteiro, nem um propósito. Almejamos metas, traçamos objetivos, projetamos lá pra frente a esperança do que desejamos alcançar e é por causa dessa infinita busca que nos movimentamos sempre.
 
Lembro-me com detalhes um pouco da angústia que sentia quando fui desafiada pelo meu professor de ciências a aprender Braille ainda no sexto ano do ensino fundamental. Seguidas vezes em suas aulas ele insistiu para que eu procurasse uma professora que me ensinaria essa diferente maneira de ler e escrever. Embora sua intenção fosse minimizar minha  fadiga visual com as letras ampliadíssimas e potentes lupas que eu usava, tentava disfarçar o incômodo e desconversava. O que eu não sabia, porém, é que estaria há exatos quatro meses de um acontecimento que mudou a direção dessa caminhada. Conhecendo o Braille tive a certeza de que aquela escrita pontográfica revolucionaria o modo pelo qual passei a interagir com a informação lida e escrita.
 
Em poucos minutos descobri que o mundo cabe na ponta dos dedos e ganhei autonomia para viajar através das histórias escritas por muitas mãos. Foram apenas quatro meses de aula e uma vida inteira desenhada simetricamente através dos arranjos de pontos tateados, que unidos passaram a representar milhares de imagens, sons, aromas, texturas e sabores. Sou tão grata ao Braille quanto também sou grata a esse professor de ciências que me abriu os "olhos" para um vasto e rico universo ainda obscuro, embora essas tantas histórias, até então, tenham  sido guiadas por vozes e pela visão emprestadas de alguém.
 
Trago também o reconhecimento pelo trabalho primoroso daquela, que então, era a única professora de Braille da minha cidade e que, mesmo sem saber, me inspirou a escolher o magistério como profissão, numa tentativa incansável em libertar dezenas de pessoas cegas da escuridão intelectual que estariam vivendo. O reconhecimento a uma incansável guerreira, minha mãe, que me apresentou e propôs esse desafio.
 
Setembro, mês em que comemoramos a primavera, no simbolismo de uma vida que se renasce, também é a linha que separa a minha prisão intelectual da minha liberdade comunicacional, graças ao aprendizado do Braille. Foi nesse mês que tive o prazer de "tatear" o primeiro livro, a primeira história lida, sentida e comemorada a cada página virada. Avancei nos estudos e apesar  disso só consegui compreender a belíssima mensagem do "Pequeno Príncipe" ao retomar a leitura do começo e pela segunda vez já conseguia interpretar cada frase dentro do seu contexto.
 
Realmente o "Essencial é invisível aos olhos" porque nem tudo depende do olhar; também existe a beleza de ver com as mãos e com os outros sentidos. Talvez esse novo olhar mereça uma chance no coração da gente.
 
Já devorei muitos livros, alegrei-me e comemorei por cada novo título em Braille recebido. Já fiquei frustrada com o descaso das editoras em produzirem suas obras em formato acessível e conservo ainda o desejo de entrar em uma livraria para comprar um livro em Braille. Como pedagoga e professora de Braille, tornei-me representante da educação especial e inclusiva e já divulguei o método Braille em cursos, palestras e seminários para centenas de pessoas cegas ou videntes. Jamais deixei que as tecnologias exercessem influência negativa sobre a forma tátil de leitura e apesar disso aprendi que se não fosse pela  leitura digital eu permaneceria isolada do universo cultural e educacional. Os livros em Braille somem das nossas prateleiras numa proporção inversa a vontade de que a leitura pontográfica preencha nossa vida de histórias. Hoje, creio que para comemorar o "setembro" de redescobertas recebi quase uma dezena de exemplares de livros em Braille, os quais vieram como presentes nessa renovação de sentidos. Finalizo reafirmando que a experiência da leitura em Braille é singular, pois tocar as palavras representa também percebe-las através de todos os sentidos.
 
Luciane Molina
 
 
 
 
 
 
  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Braille e Simbolismo: continuação

Ainda não se trata de uma produção científica, porém, esse ensaio pretende demonstrar a relação entre o Braille e a semiótica, para reforçar o simbolismo na relação entre o ensinar e o aprender, desmitificando que o Braille só tem que ser ensinado pela "decoreba" de pontos.
 
Braille e simbolismo: continuação
 
As evidências que sustentam uma abordagem contemporânea do ensino do Braille no contexto semiótico tem causado descontentamento entre meia dúzia de profissionais tradicionalistas. Esse pensamento semiótico em relação ao sistema Braille é que venho defendendo incansavelmente nas aulas para cegos ou nas formações que ofereço para profissionais que enxergam. A semiótica é a ciência responsável por estudar todos os signos e linguagens e o sistema Braille consiste na leitura tátil e na escrita em relevo que possibilita a comunicação entre as pessoas. E se essa prática adotada por mim tem gerado inúmeras revoltas, por conhecidos e desconhecidos, cabe a mim continuar defendendo, com sustentação teórico-prática de que forma o sistema Braille está inserido no campo da semiótica para esclarecer pra todos eles os equívocos de um ensino mecânico por decoreba de pontos aleatórios.
 
Em primeiro lugar, é impossível transmitir uma mensagem sem que haja uma linguagem, um destinatário e um  remetente. Se um ou mais dos interlocutores for cego o código utilizado será o sistema Braille e a comunicação estabelecida como um ato intencional para esse grupo específico. Somos, por natureza, seres simbólicos, de linguagem e comunicação. Qualquer que seja a forma utilizada para estabelecer essa comunicação, depende de um conjunto de símbolos que exprimem ideias por meio de  regras e combinações de elementos visuais, gestuais ou táteis.
 
Das pinturas rupestres a oralidade, foi somente com o surgimento da comunicação escrita que a sociedade passou a evoluir mais rapidamente, acompanhando as necessidades dos homens. Hoje essa evolução é vivenciada pela comunicação instantânea através da internet e do uso das novas tecnologias.
 
Entretanto, o objetivo aqui é falar sobre Braille e sua representação semiótica. Começo investigar o que Lemos et al. dizem acerca da compreensão dos pontos em relevo pelo tato. "Os pontos em relevo permitem a compreensão instantânea das letras como um todo, uma função indispensável ao processo da leitura" (Lemos et al. 1999,p. 14). É evidente que o sistema Braille, sendo um código estruturado e organizado em sinais representativos, é também objeto de estudo da semiótica. Em outras palavras o sistema Braille representa alguma coisa para alguém e, portanto, constitui-se como um signo. 
 
signo é toda coisa que substitui outra e se torna representativa para alguém. O signo não é o objeto; ele apenas ocupa o lugar do objeto com capacidade de produzir efeito na mente das pessoas e esse efeito é um processo natural e individual, porque o cérebro vai montá-los automaticamente.
 
Já explorei bastante essa definição em meus textos, porém, não custa revisitar o conceito sobre as combinações que compõem a escrita Braille. Cada sinal Braille possui um formato que tem origem por meio de uma combinação lógica e simétrica entre seis pontos. Cada um desses sinais, que pode representar letras do alfabeto, numerais, sinais de pontuação e tantas outras representações, tem origem por pontos que se arranjam e são enumerados de 1 a 6. Cada ponto ocupa seu espaço e uma posição. Trabalhamos aí, além do conceito espacial e numérico, também as  noções de lateralidade. Também venho afirmando que é preciso trabalhar com materiais diversos, que reforcem o aprendizado das letras por meio de figuras circulares, em diversas escalas ampliadas, para a apropriação de cada letra e  para a compreensão dos pontos que as compõe.
 
É preciso, inicialmente, conhecer o local de cada ponto para formar o símbolo/letra. Nessa etapa, porém, deve-se compreender que posição numérica ocupa, verificando as posições 1, 2, 3, 4, 5 e 6. É apenas aqui, num momento  inicial de aprendizagem, que se ensina decodificar, entretanto sem forçar a decoreba mecânica e desconectada da leitura. Ensina-se quais  pontos formam um determinado sinal.
 
Quando o aprendizado do sistema Braille  passa a ser sustentado através de materiais em menor escala, permitindo uma maior apropriação tátil para o treino da leitura, essa decodificação é substituída pelo que denomino de "simbolismo". Isso deixa claro que, além da imagem visual,  existe também uma imagem mental de cada letra Braille, porque ela passa a ser também uma imagem tátil. Por exemplo, é comum associar os formatos das letras em Braille a figuras geométricas como quadrados, círculos e retângulos, além da busca em repertórios imagéticos particulares por alguma imagem. Esse objeto que passa a representar um sinal em relevo é chamado de signo Braille.
 
Neste caso os formatos Braille descobertos ao acaso quando olhamos ou tateamos um texto sugerem diferentes relações de semelhança comparativa entre o Braille e alguma imagem/objeto. Reafirmo que o ensino do Braille deve estar pautado no simbolismo pela associação a imagens, a figuras e a objetos, sejam eles conhecidos pela visão ou percebidos pelas mãos. E assim enxergamos setas, retas, animais, cadeiras, cruzamentos, ângulos, trevo de quatro folhas, carrinhos, orelha, etc..
 
Referência:
LEMOS, Edson Ribeiro; CERQUEIRA, Jonir. O sistema Braille no Brasil. Revista Brasileira para Cegos. Rio de Janeiro: Benjamin Constante, 1999.
LEMOS, Edson Ribeiro et al. Louis Braille: sua vida e seu sistema. 2 ed. São Paulo: Fundação Dorina Nowill para Cegos, 1999.
 
Luciane Molina 
 
 
    
 
 
 

sábado, 9 de agosto de 2014

Dia Nacional da Equoterapia é comemorado em Caraguatatuba

Para comemorar o dia nacional da equoterapia,  profissionais da  Associação de Apoio ao Desenvolvimento Humano (ACALENTO) estiveram, nessa sexta-feira (08),  demonstrando os trabalhos na Praça Cândido Mota, em Caraguatatuba.
 
As demonstrações contaram com a presença dos profissionais e terapeutas  da instituição que conduziram atividades no cavalo  com  os pacientes atendidos e visitantes, a fim de divulgar os benefícios desse tratamento.  A Equoterapia é um método terapêutico que utiliza o cavalo numa abordagem interdisciplinar, envolvendo educação, saúde e equitação. Destina-se a pessoas com deficiência, buscando melhorias nos aspectos físico, psicológico, emocional, cognitivo, biopsicossocial, entre outros.
 
De acordo com a fisioterapeuta e coordenadora da ACALENTO, Daniela Nunes Marazzi, são atendidos cerca de 130 pacientes todos os meses, entre conveniados com município, filantropia e particulares. "cada atendimento dura por volta de 40 minutos, sendo 30 deles em cima do cavalo para desenvolvimento de atividades específicas para cada caso".
 
O dia nacional da Equoterapia é comemorado em 9 de agosto, data instituída pela LEI Nº 12.067, DE 29 DE OUTUBRO DE 2009.
 
A Associação de Apoio ao Desenvolvimento Humano (ACALENTO) é uma instituição sem fins lucrativos. Está localizada na  Avenida Miramar, no 6980 – Porto Novo, Caraguatatuba - SP. Fone: (12) 3887-9043.
 
Minha experiência:
Quem me conhece de longa data sabe do "pavor" que tenho de chegar perto de um cavalo e, aliás, sempre evitei esse momento. Durante o curso de Braille que ministrei em Caraguatatuba recebi como alunas algumas terapeutas e profissionais da ACALENTO,instituição que trabalha com a Equoterapia aqui. elas  me desafiavam a visitar os trabalhos que desenvolviam. Fugi, incansavelmente, não por desacreditar nos benefícios dessa terapia, mas por receio em chegar perto do animal. Até que hoje, passeando pelo centro de Caraguatatuba, dei de encontro com uma demonstração de equoterapia na praça Cândido Mota. Fui abordada por três ex-alunas e queridas amigas, duas delas ainda trabalham na ACALENTO. A apresentação em praça pública tinha como objetivo comemorar o dia da equoterapia e divulgar os trabalhos dessa instituição. Dessa vez não deu pra fugir e, de repente, lá estava eu apreensiva e atenta a cada detalhe. Conheci o animal pelas mãos, desde cabeça, narinas, orelhas, crina, patas, casco, rabo, corpo e equipamentos como sela, freio, rédea e estribo. Ajudada pelos instrutores e terapeutas subi no cavalo e fui conduzida pelas atividades e instruções fornecidas. Foi uma das experiências mais diferentes que vivi ao sentir o movimento do animal que me conduzia a passos lentos e firmes. Meu corpo ainda tenso pelo medo, aos poucos foi se soltando e o receio pela queda desaparecendo. No final ainda, com ajuda, alimentei o cavalo e despedi-me com a sensação de leveza diante daquela nova percepção descoberta e guiada pelas mãos daqueles profissionais tão dedicados, pacienciosos e atentos. Em tempo, o cavalo que montei se chama Ferrari e é utilizado com pacientes da ACALENTO.